Vida longa ao Fegadan!

por Diego Muller
Fegadan
crédito: Lidiane Hein/Divulgação

Esse mês, nos dias 09, 10 e 11 de dezembro, aconteceu em Caxias do Sul, na localidade rural da Criúva, juntamente com o Rodeio Crioulo Nacional da Criúva, a terceira edição do FEGADAN (III Festival gaúcho de danças), sob organização e supervisão e apoio do MTG do RS, desta vez em parceria com o CTG Pousada dos tropeiros.

O FEGADAN, pra quem não conhece, é um evento ainda jovem, que nasceu sob os pedidos dos instrutores, grupos e CTGs apartes ao movimento que acontece e dirige o ENART e suas danças. As nossas danças acontecem (desde 92) divididas em duas linhas, onde uma basicamente abraça critérios mais plásticos e criativos, enquanto outra possui óticas mais conservadoras e naturais. A primeira abrange diversos pesquisadores e diversos livros, enquanto a outra abraça as obras e fundamentações do folclorista João Carlos Paixão Côrtes. Essas duas óticas não competem entre si, e nem teria como. Possuem seus concursos próprios e separados. Uma linha tem o Enart como ponto fundamental e final, enquanto a outra tem diversos rodeios grandes durante o ano como objetivo, incluindo o Rodeio crioulo internacional de Vacaria (porém, que acontece apenas de dois em dois anos).

Solicitando ao MTG um espaço oficial (por parte da instituição) para o lado “mais espontâneo de se dançar”, pediu-se aos grupos apresentarem uma proposta de evento, para surgir a possibilidade do MTG em organiza-lo e viabiliza-lo (tudo gerido pelo ex-presidente do MTG, Sr. Manoelito Savarís). A proposta foi entregue, formando uma comissão de instrutores (os que puderam se fazer presentes, dentro de suas disponibilidades e interesses) e o evento foi ganhando forma, com regulamento, com fundamentações, com rumos, óticas, espaços, datas, etc e etc.

Afora o ENART (que possui uma organização toda administrada pelo MTG, junto a seus painéis, equipes, filosofias, avaliações, etc), as danças dentro de um modo de pensar baseado no que Paixão Côrtes pensa e quer (para nossos rumos), não possuía tal organização… nem parecida. Ela sempre esteve ligada a uma “organização” espontânea, a rodeios esparsos (alguns até já extintos), a “líderes” que surgiam e sumiam, a “avaliadores” que sumiam e voltavam, quase sempre presos a uma boa vontade de uma coordenação artística (nem sempre talentosa), a uma patronagem (nem sempre dedicada) e a investidores (que nem sempre pensam na dança como boa finalidade ou investimento em cultura nossa). A mudança dessas peças (incluindo de instrutores), dentro da organização desses eventos e suas entidades organizadoras, mudava o rumo das nossas danças, às vezes drasticamente, deixando o meio preso a organizações voláteis e sem perspectiva futura. Porém os grupos querem ter (e devem) as rédeas do que cada um dança e cada um quer. Com essas preocupações em mente o FEGADAN surgiu sendo uma vitória sadia ao movimento, que via (e vê) nele um evento de afirmação, de aprovação que, com apoio e a dimensão da entidade MTG, precisávamos para fugir das margens das coisas criadas “às macegas” e brotadas como “mio-mio” no campo. O FEGADAN então, basicamente, veio para ser o contraponto ao ENART, tornando os dois eventos diferentes e paralelos (em filosofias, principalmente). Assumiu-se então essa diferença, ficando para o FEGADAN a fundamentação e a propagação das obras únicas e exclusivas de Paixão Côrtes e Barbosa Lessa, enquanto no ENART ficariam um somatório de outros tantos pesquisadores, leitores, escritores, fundamentalistas, etc. Essa diferença foi (e é) fundamental para o paralelismo dos dois eventos, claros e autênticos em si. O FEGADAN ficou com o folclorista (e suas ideologias de além tempo) e o ENART com os dançarinos (e seus anseios criativos e limitados).

E foi assim que em 18 e 19 de outubro de 2014, após os painéis de indumentária e de dança (uma modalidade mais “culta” de “cursos de danças”), aconteceu o I FEGADAN, em Caxias do Sul, nos pavilhões da Festa da Uva, tendo o seu campeão o direito a fazer o encerramento do ENART, em Santa Cruz do Sul, mostrando àquele ginásio lotado um jeito todo diferente de se dançar, de se portar, de se vestir e de se tocar… levando em conta os pensamentos do mestre João Caros Paixão Côrtes. Uma vitória!

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Particularmente, eu sou um adepto ao FEGADAN, fã do evento… até porquê conseguimos participar e ajudar a construí-lo desde o seu início, apostando na novidade, dentro das nossas possibilidades e limitações, ano-após-ano, tornando-o junto com outros tantos, hoje, tão importante (mesmo sem ele mesmo saber dessa magnitude) para a divulgação das nossas coisas. Há inclusive textos nossos, que escrevemos como sugestão apenas, lá no início, que hoje estão exatamente transcritos no regulamento do festival.

Há uns dois anos atrás (não muito), frequentando o ENART, muitos amigos nem sabiam o que eu dançava… o que dançávamos, onde dançávamos, onde concorríamos, o que eram e quais eram nossas danças. De rodeios grandíssimos não tinham nem informação. E estou falando de um movimento “paralelo” que tinha 22 anos já de peleia. Se acontecia, parecia que acontecia escondido, sem preocupação alguma de divulgação, fomentação, de ser referência, a não ser a de “sobrevivência”. Hoje, em apenas dois anos (e 3 Fegadan´s), a quantidade de indagações, perguntas e interesse de pessoas do mesmo meio ENART que acompanharam, compartilharam e que disseram que buscaram nossas coisas (nossas, do Fegadan mesmo) para referência, é imensamente apavorante. Houveram inclusive carros de pessoas que há dois anos nem sabiam o que dançavamos no Fegadan, chegando na Criúva domingo, para assisti-la, vindo de longe, de cidades que nem possuem grupos do lado do Fegadan. A quantidade de mensagens de pessoas que nem sabia que acompanhava o meio (e o III Fegadan) é gigante. E a dimensão que a coisa tomou no acompanhamento do evento, assim como seu “glamour” na sua busca, realmente surpreende… sério! Não sabia que era tanto!

Um vídeo de uma simples dança de um grupo vencedor, jogado nas redes sociais, chegando a 16000 visualizações e 300 compartilhamentos em 24 horas apenas de postagem, não é coisa de um simples evento. Podem ter certeza! …o que esse povo todo busca? …e onde isso vai e pode parar? Não sei… mas o que isso levará adiante, isso sim tenho convicção!

O Fegadan é um evento que escutou os grupos… fez o que pediram… que veio de baixo para cima (não ao contrário)… que não disseminou modas… não tem bola da vez… não propagou gostos (e se tivessem, se diluiriam no meio de tantas pessoas envolvidas e tanto avaliadores). O Fegadan busca um denominador comum, diferente de opiniões “únicas” e “a ponta de faca”. Possui de 5 a 8 avaliadores. Possui revisão. Possui planilha aberta. Revolucionou o nosso modo de avaliação do “nosso lado”. O Fegadan está atento a tudo, incluindo à música e à indumentária (tópicos tanto esquecidos nos eventos de hoje em dia). Consegue valorizar os detalhes, afastando o “bastantão”, permitindo um “frio na barriga” de um sorteio em paralelo a um ensaio rígido de “apertar parafusos” e corrigir “o detalhe do detalhe”. Sabe unir as duas coisas, sem pesar os grupos, presenteando o público com uma qualidade que ele exige. Possui uma formatação que conversa com as tecnologias e com o signo que a juventude dos grupos de hoje entende. Possui um regulamento moderno, jovem e agregador, longe das fórmulas antigas, da década de 80 (as vezes repetidas ainda), quando tínhamos outra realidade e necessidade, onde tínhamos apenas um livro só de danças, somente 20 danças e um ou outro entendedor de dança no “mercado”. Hoje somos muitos… diversificados… e que bom! …todos juntos!
É um formato que queríamos para todos os eventos!

Salve o Fegadan!…

…E dias 14 e 15 de outubro de 2017 estaremos de volta!

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TODOS OS CAMPEÕES

DANÇAS ADULTA:
I Fegadan/2014 – CTG Imigrantes e tradição – Caxias do Sul/RS
II Fegadan/2015 – CTG Brazão do Rio Grande – Canoas/RS
III Fegadan/2016 – CTG Brazão do Rio Grande – Canoas/RS

DANÇAS VETERANA:
I Fegadan/2014 – CTG Rincão da lealdade – Caxias do Sul/RS
II Fegadan/2015 – CTG Brazão do Rio Grande – Canoas/RS
III Fegadan/2016 – CTG Brazão do Rio Grande – Canoas/RS

DANÇAS JUVENIL:
I Fegadan/2014 – CTG Os carreteiros – Caxias do Sul/RS
II Fegadan/2015 – CTG Imigrantes e tradição – Caxias do Sul/RS
III Fegadan/2016 – CTG Imigrantes e tradição – Caxias do Sul/RS

DANÇAS MIRIM:
I Fegadan/2014 – CTG Rincão da lealdade – Caxias do Sul/RS
II Fegadan/2015 – CTG Imigrantes e tradição – Caxias do Sul/RS
III Fegadan/2016 – CTG Os carreteiros – Caxias do Sul/RS

DANÇAS BIRIVA DO TROPEIRISMO:
I Fegadan/2014 – CTG Imigrantes e tradição – Caxias do Sul/RS
II Fegadan/2015 – CTG Imigrantes e tradição – Caxias do Sul/RS
III Fegadan/2016 – CTG Os carreteiros – Caxias do Sul/RS

MELHOR INDUMENTÁRIA ADULTA:
I Fegadan/2014 – CTG Laço da amizade – Caxias do Sul/RS
II Fegadan/2015 – CTG Imigrantes e tradição – Caxias do Sul/RS
III Fegadan/2016 – Conjunto Folclórico Os Rio-grandenses – Campos Borges/RS

MELHOR INDUMENTÁRIA VETERANA:
I Fegadan/2014 – CTG Os carreteiros – Caxias do Sul/RS
II Fegadan/2015 – CTG Imigrantes e tradição – Caxias do Sul/RS
III Fegadan/2016 – CTG Paixão Côrtes – Caxias do Sul/RS

MELHOR INDUMENTÁRIA JUVENIL:
I Fegadan/2014 – CTG Imigrantes e tradição – Caxias do Sul/RS
II Fegadan/2015 – CTG Galpão serrano – Flores da Cunha/RS
III Fegadan/2016 – CTG Laço da amizade – Caxias do Sul/RS

MELHOR INDUMENTÁRIA MIRIM:
I Fegadan/2014 – CTG Rincão da lealdade – Caxias do Sul/RS
II Fegadan/2015 – CTG Imigrantes e tradição – Caxias do Sul/RS
III Fegadan/2016 – CTG Laço da amizade – Caxias do Sul/RS

MELHOR INDUMENTÁRIA BIRIVA:
I Fegadan/2014 – CTG Imigrantes e tradição – Caxias do Sul/RS
II Fegadan/2015 – CTG Imigrantes e tradição – Caxias do Sul/RS
III Fegadan/2016 – CTG Os carreteiros – Caxias do Sul/RS

MUSICAL MAIS AUTÊNTICO
I Fegadan/2014 – CTG Aruá – Caxias do Sul/RS
II Fegadan/2015 – CTG Brazão do Rio Grande – Canoas/RS
III Fegadan/2016 – CTG Brazão do Rio Grande – Canoas/RS

CAMPEÃO GERAL/TROFÉU FEGADAN
I Fegadan/2014 – CTG Imigrantes e tradição – Caxias do Sul/RS
II Fegadan/2015 – CTG Imigrantes e tradição – Caxias do Sul/RS
III Fegadan/2016 – CTG Os carreteiros – Caxias do Sul/RS

(Foto: II Fegadan, de Lidiane hein – CTG Brazão do Rio Grande – Canoas/RS)

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