Trova e Pajada: diferenças e semelhanças

por Paulo de Freitas Mendonça
Trova e pajada
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O Rio Grande do Sul possui, além dos cantores do divino que também são improvisadores, suas mais reconhecidas artes como improvisação na trova e na pajada. Na pajada ainda engatinhamos enquanto seu formato estético, haja vista que foi resgatada faz muito pouco tempo e ainda se improvisa somente em décima, mas a trova possui um movimento impressionante, mais antigo, mais numeroso e mais variado esteticamente. Os trovadores são protagonistas de uma expressão cultural extremamente popular no sul do Brasil e que se torna como importante identidade do artista rio-grandense em qualquer parte do país. Basta se abrir um acordeão, que nós chamamos de gaita, em mi maior, e já se identifica a procedência sulina brasileira. A mais reconhecida das improvisações gaúchas em território nacional é a trova em Mi Maior de Gavetão, hoje oficializada como Trova Campeira. Contudo há outros tipos, a Trova de Martelo, a Estilo Gildo de Freitas e a Trova de Tira Teima.

A Trova de Martelo tem suas particularidades e exige uma rapidez de raciocínio mais apurado, haja vista que não há interlúdio musical entre uma estrofe e outra e há um jogo de armadilhas poéticas que o contendor deve fazer o possível para se livrar. A Trova Estilo Gildo de Freitas é a mais jovem de todas as modalidades, surge na década de 1980, quando alguns trovadores passam a improvisar sobre a melodia da obra de Gildo de Freitas, intitulada Definição do Grito. Já a trova Tira Teima está praticamente caindo em desuso.

Dizem os historiadores que a trova nasce em quadra e que somente se torna em sextilhas com o advento da introdução no Rio Grande do Sul, do acordeão, pós-guerra do Paraguai, porém em meus estudos chego a suspeitar que nasça em décima, tomando como exemplo o guerreiro Pedro Canga (Pedro Muniz Fagundes) que peleia na Revolução Farroupilha nas Forças de Silva Tavares. Ele improvisa em décimas e é reconhecido como trovador no Período Farroupilha (1835-1845). Também para incentivar a dúvida, relembro que o termo “quadra” é como se chamam as décimas em Portugal em importante período de sua difusão, enquanto a nossa pátria nasce. Contudo durante a citada guerra da Tríplice Aliança já encontro versos em sextilhas no estilo trovadoresco (ABCBDB), forma que até hoje é usada na trova campeira, também conhecida como Mi Maior de Gavetão.

A trova em geral e a pajada possuem Importantes diferenças. A primeira é cantada e acompanhada de acordeão e a segunda, recitada acompanhada de violão (guitarra). A Primeira é feita em sextilha (ABCBDB) ou nona (ABCBDBEEB) e a segunda, em décima (ABBAACCDDC), ou seja, a trova tem versos brancos em sua estrofe e a pajada não. Na pajada todos os versos são rimados entre si. A trova utiliza-se do que os estudiosos do trovadorismo chamam de “leixa-prende” (=deixa-prende), que é o recurso de apanhar o último verso do seu oponente e começar sua estrofes improvisada com o mesmo verso por inteiro ou com pequena variação. Na pajada não se exige isto, apenas que o tema seja seguido. A pajada encerra com a meia-letra, aquela estrofe em que os pajadores vão intercalando versos até o final da estrofe, já a trova cada trovador encerra sua atuação com uma estância inteira. A trova, em geral, é expressa com linguagem popular mais simples do que a pajada que procura abordar temas mais profundos e mais intelectualizados. Talvez por isso, a primeira seja mais popular que a segunda. Nota-se que em cada uma das expressões artísticas de improvisação há fatores de dificuldade e de flexibilidade diferenciados o que justifica seu grau de dificuldade dentro de cada parâmetro.

Dentre as semelhanças estão os fatos de ambas serem improvisações, necessitarem de um músico de apoio e se beneficiarem da rima consoante, aquela que combina desde a vogal da última sílaba tônica com semelhança de som até o final da palavra derradeira do verso (fu tu ro – se gu ro). Ambas circulam no meio do nativismo e tradicionalismo rio-grandenses e são formadoras do imaginário do gaúcho rio-grandense.

São artistas referenciais destas formas de improvisação, Gildo de Freitas para a trova e Jayme Caetano Braun para a pajada. Todavia, nas duas modalidades há nomes expressivos na atualidade que dão legitimidade e preservam a improvisação gaúcha em alto mastro e bom tom. Em alguns casos, há interação entre trova e pajada, inclusive com alguns praticantes da arte que são reconhecidos como trovadores e pajadores e atuam nas duas frentes.

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