Sementes de Paixão

por Diego Muller
Gravação do Galpão Crioulo
crédito: Rosana Orlandi/Divulgação

“O Laçador está vivo na palma da sua mão… o pago nasce de novo, rebenta o sol num clarão… Se um piá seguir seu rastro, no rumo da tradição, tem sementes de Paixão! …são sementes de Paixão!” (Antônio Augusto Fagundes)

Vai ao ar na manhã deste domingo, dia 15 de janeiro, a tão esperada reprise do programa Galpão Crioulo, edição Especial sobre a dança, o canto e as obras do folclorista João Carlos D´Ávila Paixão Côrtes. Programa este nos presenteado pela RBS TV e sua produção, gravado e transmitido em setembro de 2016, devido às comemorações festivas da Semana Farroupilha no nosso estado.

Foi um Galpão Crioulo realmente especial e histórico, quase que documental… pois há anos (e raramente) tínhamos um programa na nossa TV aberta voltado às pesquisas e aos pensamentos do nosso folclorista maior. Neste foi diferente, onde pudemos ouvi-lo apontando suas visões, suas necessidades e seus pensamentos, ilustrando o mesmo com dançarinos, com cantores, instrumentos, indumentárias, danças e cantos exatos como suas pesquisas realmente querem retratar e deixar a diante.

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Pra quem ainda não percebeu, nossas danças hoje são divididas em duas vertentes básicas e distintas:

*Uma mais voltada para “shows” – com preocupações mais técnicas, complexidades de avaliações e de apresentações, geralmente com vestimentas uniformes e um dançar mais “rígido”, com ritmos um tanto acelerados e com o “glamour” da apresentação despejado em cima de uma coreografia de entrada e de saída, num tema específico (quase teatral), variando de grupo para grupo. Esta é a proposta do evento chamado ENART e de seus grupos, descendentes direto da era dos grupos de shows da década de 70 (grupos que se apresentavam para turistas), remanescentes do FEMOBRAL e FEGART, e com diretrizes e bibliografia formatadas pelos próprios instrutores dos grupos de danças.

*A outra vertente (a que aqui destacamos e defendemos), já possui conotações totalmente opostas – esta oficializada entre 1991 e 1992, com tendências a movimentos corporais naturais, de recuperações dos motivos folclóricos e autênticos da nossa gente, danças lentas e favoráveis ao prazer da repetição, roupas “desuniformizadas” com modelos individuais a cada dançarino e seu corpo, com preocupações mais na divulgação das nossas danças, dos nossos usos e costumes exclusivamente rurais (onde essas mesmas danças nasceram e foram executadas). Uma vertente sem suposições, baseada na aproximação do que era “in loco”, na nossa campanha. Esse modo de dançar é totalmente influenciado, iniciado e baseado nas obras exclusivas do folclorista Paixão Côrtes. É o que ele pesquisou, analisou, concluiu, deseja e pensa para as nossas danças… tanto registrado em suas obras e no esplendor de seus cursos.

As danças do “ciclo” ENART são constantemente levadas ao ar e aos programas de TV… talvez por representarem algo mais “turístico”, mais rápido, prendendo o telespectador e o público mais “leigo” e amplo. Já a filosofia de Paixão Côrtes é algo que podemos citar como “cult”, mais real e verdadeiro, que apesar de ser compreendida de uma maneira mais “intelectual” (e talvez, assim, mais restrita), ficará para sempre nas estantes e na leitura de todos os que um dia virão a trabalhar, gostar e se influenciar por nossas danças e nossa cultura, merecendo assim (SIM) um lugar de maior destaque em nossos meios de comunicação, para realmente poder chegar às bases educacionais, culturais e folclóricas do nosso estado e do nosso Brasil. Basicamente foi isso que aconteceu neste Galpão Crioulo tão especial que retorna ao ar neste domingo… e justamente por especial e importante, culturalmente, é que retornará ao publico.

A quantidade de gente que procura e pede por esse programa é impressionante!

No ar, Paixão Côrtes citou como eram registradas as pesquisas das nossas danças e das músicas do nosso cancioneiro rural e folclórico, preenchido por suas fortes e claras opiniões sobre o movimento e a autenticidade com que nossas coisas devem ser trabalhadas. Foi à tela, inclusive, 4 danças das suas pesquisas (Alegre chorosa, Vanerão sapateado, Sarna e Chote de par-trocado à moda serrana), danças essas até então inéditas à TV Brasileira e que ainda estão fora dos regulamentos do citado ENART (porém inclusas hoje no FEGADAN, de organização do MTG do RS). Juntou-se a isso indumentárias baseadas totalmente em suas obras literárias, com peças femininas e modelos de dona Marina Monteiro Paixão Côrtes, incluindo na demonstração um tradicional “mate de cumadre”, em cuias de porcelana, cevadas com mate-doce… também sob as óticas e pesquisas de João Carlos Paixão Côrtes.

O CTG Brazão do Rio Grande, de Canoas, serviu novamente de ilustração para suas explanações e pesquisas, consolidando seus pensamentos e levando ao ar com fidelidade toda a carga literária e folclórica adquirida em todas as suas obras e cursos, sob seu chamado e sua própria supervisão, numa parceria que novamente deu certo na fixação da nossa cultura gaúcha (novamente o CTG Brazão acumula com felicidade mais uma dívida impagável para com o mestre). Resumindo, foi um programa realmente documental, feito em conjunto para realmente poder ficar como registro histórico e televisivo às novas gerações, que certamente o usarão como embasamento cultural eterno. Tudo isso, claro, “costiado” musicalmente por um conjunto de músicos da fina flor do nosso cancioneiro folclórico atual (Fábio Soares, Perci Oliveira de Barros, Filipi Simon, Clarissa Ferreira e Djonata Faquini), reproduzindo com fidelidade como eram nossos temas e nossas danças antigas, reproduzindo temas de autoria e de pesquisas também de Paixão Côrtes com rabeca, viola, violão, acordeom, pandeiro e vozes em dueto, à moda exata dos de antigamente… com muita autenticidade – como ele mesmo cita à TV.

Inclusive, vale a pena repetir e prestar atenção constante na quantidade de vezes em que o mestre cita a palavra AUTENTICIDADE, justamente para fixar que, sim: podemos (hoje em dia) procura-la e acha-la, identificando-a nas nossas apresentações artísticas, em forma de dança e de canto. Basta ter conhecimento!

Ah, para finalizar e realmente dizer que não somos perfeitos e que devemos sempre amadurecer nossos conceitos e apresentações (mesmo indo ao ar e ao público de maneira tão reconhecida e elogiada), um dia após o programa ter sido gravado levamos um “puxão-de-orelha” saudável do mestre, que nos alertou de apenas um “erro” em todo o programa gravado, e que deveríamos sanar para as próximas execuções artísticas… que era de um ritmo um tanto acelerado na apresentação do tema “Seu Calça larga”, que nas suas pesquisas era executada de forma mais lenta, justamente por ser um tema que era tocado para a animação dos bailes rurais (não para shows e cantorias), para as pessoas o dançarem de maneira prazerosa e espontânea, sem nenhuma obrigação de exagero ou alta velocidade (erro comum nas nossas danças de hoje). Como sempre, e alegremente, entendemos o recado e agradecemos por esses “puxões-de-orelha”, que são o que nos fazem aprender e entender o que devemos repassar adiante, ao invés de reproduzirmos novamente equívocos por falta de entendimento nosso – meros mortais, perto do bronze desta estátua que anda e fala… graças a Deus!

Por fim, não perca e não deixe de assistir novamente, este programa especialíssimo e único, que vale a pena rever e rever, escutar e escutar, lembrar e lembrar… que terminou com mais de um minuto de um aplauso constante de agradecimento e um choro generalizado em estúdio!!! Emocionante!!!

Gracias RBS TV…
Gracias Galpão Crioulo…
…Salve Paixão!!!

É neste domingo, dia 15 de janeiro, de manhã cedo:
Galpão Crioulo especial com Paixão Côrtes!

“Na realidade, a presença renovada das gerações dizem mais do que o meu trabalho. Isso é a importância da consciência da juventude pra transmitir às gerações futura! (…) E é isso que a gente quer: do povo volta para o povo!” (Paixão Côrtes)

*Foto: Paixão Côrtes e CTG Brazão do Rio Grande (de Rosana Marques Orlandi)

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