Sapateio – Parte 1

por Diego Muller
Sapateio
crédito: Albert Moreira/Produtora Next/Divulgação

Falando nos elementos importantes para nossas danças, destacamos hoje um que é primordial: os nossos sapateios. Não sapateios da Chula, mas o sapateio nas nossas danças gaúchas, com relação peão-e-prenda… como relação peão-e-prenda.

Devemos fazer essa diferenciação, pois são motivos e elementos distintos os que tratam dos sapateios numa apresentação masculina individual (Chula, Chico-do-porrete e Fandango-sapateado, por exemplo) e os que falam de um contato “amoroso”, numa dança de primeira geração coreográfica. A própria dança da Chula (já que a citamos acima), mudou muito ao longo dos tempos, perdendo a conotação bonita que se tinha de uma “figura” única (em seu todo), virando uma junção de coisas, de “floreios”, repiques e ponta-e-tacos, quase sempre em movimentações sem função alguma, com pouquíssimas diferenciações claras entre um “passo” e outro, onde a função fica restrita apenas em mostrar uma dificuldade de execução, porém pobre de criatividade (muitos passos antigamente nem ponta-e-taco tinham ou precisavam, por exemplo). Conotação esta que se diferencia totalmente de uma apresentação onde se tem uma dama a frente, num motivo para ela estar alí, para sapatearmos diante dela e numa relação clara com uma coreografia especifica.

Importante destacar isso, já de inicio, pois geralmente em grupos de danças o destinado a montar sapateios para as danças (como Balaio, Tirana-do-lenço, Tirana-do-ombro, Chimarrita-balão, etc e etc), é geralmente um chuliador ou ex-chuliador: o suposto “criativo”, onde muitas vezes despeja nessas danças (em frente a uma dama) toda a vontade exata (ou a frustação, inclusive) que tinha e tem diante de uma balisa de Chula, onde se dança sozinho.

De início, cremos, já partem assim de um ponto de vista totalmente errôneo, dentro das experiências que somamos importantes e trazemos a tona nessa coluna cultural.

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Voltando um pouco no contexto do assunto:

Em livros antigos de João Carlos Paixão Côrtes vemos, seguidamente, capítulos citando: Tipos de sapateios; Pesquisas de sapateios; Cantinelas e sapateadas; etc. “Novas danças do Rio Grande antigo”, “Danças e andanças”, “Danças birivas do tropeirismo gaúcho” e “Baile e gerações coreográficas” são exemplos bibliográficos fáceis de se achar… mas também há as publicações antigas de o “Correio do povo”: “Terol sapateado”, “Períco, famoso sapateador gaúcho”, “O Chico no folclóre gaúcho”, “Fandango-sapateado” e “Danças gaúchas antigas e novas pesquisas de sapateio”. Mas, por incrível que pareça para alguns, em “Manual de danças gaúchas” já havia (e há) um capitulo com uma exata classificação de nossos sapateios e suas dinâmicas, por ordem crescente. A questão toda é do porquê há capítulos tantos sobre sapateios e pesquisas de sapateios se os grupos e os dançarinos (incluindo chuliadores) acham tão fácil de os montar? …precisa de tanto embasamento folclórico assim para esse ato? …se perguntam!

As perguntas que se pode fazer são:
Quais os tipos de sapateios que temos?
Quais os pesquisados?
E não é somente bate-pé e ponta-e-taco?

Essas são as indagações que se tinha ao ler esse material e tentar interpretar o que se tentava dizer alí… já que: por nada, claro que não é!

A dança mais antiga de sapateio que temos é o “Fandango sapateado”, herança direta do colono luso. Dança pesquisada e registrada, inclusive com seus sapateios antigos retratados. Esses sapateios antigos eram: martelão, martelinho, cerra-e-puxa, cerra-e-trava, cerra-e-manca, parafuso, redemoinho, olha-o-bicho, olha-o-fogo, cara-volta. Além de bate-pés, claro… interrompidos, continuados, redobrados. Algumas dessas figuras duraram ao tempo e se vê inclusive no “Anú” (nalgumas gerações mais adiantes ao do ciclo do tropeirismo). Analisando esses sapateios (os mais antigos e os mais antigos recolhidos) se nota e se entende claramente que não são e nem eram perto do que se executa hoje em dia em nossas danças. A felicidade de resgate dessas figuras deixa essa visão clara.

Partimos então do principio que o que temos hoje é concepção da arte e do refinamento de destreza de cada individuo criativo (possivelmente gerada na época dos grupos de shows). Porém, longe do que tínhamos em nossas danças e do que foi pesquisado.

Também lembramos que o amadurecimento dos nossos sapateios nem sempre aconteceu de maneira a resgatar o folclóre que tivemos (caboclo ou não), inclusive por inserirem (na década de 70) trejeitos argentinos nas nossas danças, e até concursos de “malambo” por aqui, deixando resquícios plenos, como o repique: que nada tem e nunca teve de gaúcho. O sapateio gaúcho usa bate-pé (vide postura brasileira). O repique é do “malambero”.

Somado a isso, lá pelos idos de 1997 (nos cursos de Paixão Côrtes, RS e Brasil a fora), surgiu um primeiro resquício de oportunidade de olharmos os sapateios de nossas danças aparte desse mundo de “shows” e “chulas” que sempre tivemos, onde se “levantou a lebre” de que havia sapateios mais fáceis e outros mais difíceis, com dinâmicas e características diferentes entre cada, executados em separado e com motivos claros para suas realizações em nossas danças. Algo como está descrito no “Manual de danças gaúchas”, na classificação citada acima. No youtube há, inclusive, um vídeo do CTG vencedor do Rodeio Internacional da Vacaria de 1998, há 19 anos atrás (CTG Os Praianos, de São José/SC), avaliado pela equipe de João Carlos Paixão Côrtes neste ano, onde no “Balaio” vencedor (por exemplo) o grupo termina a dança com sapateios mais fáceis do que quando se iniciou a mesma. Uma execução totalmente diferente do comum, com algum motivo específico, vindo das palavras e explicações de Paixão Côrtes em seus cursos (onde só um grupo levou isso em consideração na época)… e foi assim o pontapé inicial. A posterior ao evento (bem depois), tirando nos cursos as dúvidas que essa execução gerou, se entendeu que a idéia daquela execução estava correta, porém a “cronologia” na execução não. Entendeu-se (propagando de vez essa informação por parte do pesquisador) que os sapateios mais fáceis seriam no inicio do “Balaio”, por exemplo, e não no fim. De novo, repetindo, como na classificação do próprio “Manual de danças gaúchas”, de 1951. A explicação? …um era no motivo de interpretação, onde os sapateios e os sarandeios eram a fala do dançarino numa dança ou a característica da primeira geração, e a dança deve refletir essa dinâmica (exatamente como se realiza na “Tirana-do-lenço” na parte de interpretação, do lenço, do corpo e da face). Sapateios e sarandeios é parte da interpretação. E a interpretação é corporal em sua plenitude, não só facial… e também, não é só na Tirana-do-lenço que ela se realizava: era em todas as danças. E sendo o sapateio parte da espontaneidade da interpretação (e não da rigidez da coreografia), alí que isso se evidenciava. Junto a isso, ainda estava a linguagem mundial da dança (de qualquer dança, de todas as modalidades e línguas), onde uma dinâmica e apoteose sempre é destacada com inicio, meio e fim… em todas as evoluções de baile, mundialmente falando. E nas nossas (a titulo de apresentação), não se deve falhar com essa relevância qualificada. Destacamos para comparação o próprio “Fandango sapateado”, com a vibração da figura do “Redobrado” no fim do mesmo… ou ainda o “Pau-de-fitas”, com o volume da “Rede-de-pescador” finalizando a dança… e assim por diante. Explicações obvias, que acrescentaram em muito o amadurecimento dos nossos entendimentos sobre as danças e nossos sapateios ao longo destes últimos anos!

Ah… e aprender não rouba espaço!

Estranho seria uma “Tirana-do-lenço”… realmente, com uma interpretação comedida no inicio da dança, porém com um sapateio ou um bate-pé cheio de movimentações, bate-esporas, pulos, floreios, pontas, etc. Ou seja: cheio de “vontade” e “volume” para uma intenção de “conhecimento” e “cerimonia” de aproximação. Exatamente proporcional é a analogia quanto a um final da mesma dança: cheio de atitudes e liberdades, porém com bate-pés simples, ou sapateios comedidos, trancados e sem dinâmicas… tudo incoerente à intenção que cada momento da dança quer e precisa passar.

Esses momentos existem em todas as danças…
…não só numa “Tirana-do-lenço”. Claro!

Antes todas as nossas danças de sapateios eram executadas “retas”. Vide o “Balaio”, de novo como exemplo: se iniciavam “quebrando tudo” e se terminava igual, na mesmíssima intensidade. Todos os sapateios eram movimentados. Todas execuções “floreados”, não permitindo ao público nem diferenciar uma execução sapateada da outra, onde no fim das contas se percebe todos sapateios como quase “iguais” e na mesma linguagem criativa: sem dinâmica, interpretação, intenção e relação alguma com o par (por mais movimentados e floreados que estivessem). Visão essa vinda dos grupos de shows ainda, onde se executavam a dança duas vezes só… e rapidamente… “a pau”.

De lá para cá essa visão foi amadurecendo muito nos grupos e nos instrutores mais atentos, junto com as novas gerações de dançarinos, cuidando para que a criação de sapateios fosse desprendida da visão antiga de uma “chula” (de “pressão” e de “quanto mais melhor”).

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Continua!

(Foto: Balaio – Filme O tempo e o vento – Albert Moreira/Produtora Next)

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