Resistência cultural – Parte II

por Diego Muller
Danca os seranos
crédito: Divulgação

Até 1983 as danças de modo geral eram “show”, com influência dos grupos turísticos (digamos assim). Em 83 se alertou para a coreografia e o manual, evidenciado com o famoso Curso de Panambí, organizado pelo IGTF e sua equipe de pesquisas, gerenciada por Paixão Côrtes. Mesmo ano em que o Paixão, a posterior, deixou seus shows e as danças de lado, se dedicando a outras atividades profissionais. De 83 em diante, portanto, os grupos entraram de cabeça na coreografia, focando exatamente nelas. Quando Paixão Côrtes retornou às danças, em 1989, a convite para avaliador do Fegart daquele ano, se deparou com um modo de dançar que nunca imaginou e nem esperava: robotizado, uniformizado e rígido. Há um documento assinado por ele e pelos avaliadores daquele ano, inclusive, se referindo às maiores falhas daquele signo quanto às apresentações vistas e analisadas. No ano de 1990, retornando à mesa avaliadora, a mesma situação. E foi a partir daí que a ótica de alerta ao mundo da dança mudou, na tentativa de buscar um modo de dançar e cultuar nossos usos e costumes mais próximo do que se esperava e simbolizava nossas coisas rurais… e isso passou a ser constante.

Posterior a isso, o primeiro alerta foi um curso-seminário em Farroupilha/RS, exclusivo às entidades da cidade (com apenas dois ou três instrutores de fora, de SC e PR), promovido pela prefeitura municipal, entre novembro e dezembro de 1990. Tanto nesse encontro, quanto nos seminários de Camboriú/SC e de Vacaria/RS, em 1991, a grita quanto ao modo de dançar, de se vestir, de se portar, tocar, etc, eram ressaltados. Alguns entenderam perfeitamente a visão de onde se queria chegar com as danças, outros nem tanto, e mais uns ainda desprezaram suas falas. Os que mais entenderam (não por coincidência) foram os que tinham referências familiares mais ligadas ao campo, a terra e ao homem rural do nosso sul. No I Nacional/Fenart, em janeiro de 1991, já se via um início de “resistência cultural”, baseada no que se passou a ouvir nas falas claras de Paixão Côrtes, neste curso de Farroupilha.

Já com a Carta de Vacaria, nascida do seminário gaúcho de 1991 (onde uma turma de instrutores queria realmente que o que o mestre falava e as suas obras servisse para os eventos, a partir de então), o alerta virou oficial e registrado, partindo da necessidade dos professores. Da carta nasceu o livro, que oficializou ainda mais a necessidade, se tornando o primeiro livro de Paixão Côrtes a adotar o concurso como transmissor de cultura – desde que dentro daqueles padrões citados e analisados em tal. Aí, se criou uma divisão clara, de dois caminhos: quem aceitou o que Paixão Côrtes dizia e os que não aceitaram (diferença básica fundamental da Carta de Vacaria).

No início, claro, tudo foi meio aos trancos, repechos e lançantes… mas a “boca no trombone” se transmudou em “trabalho”… funcionando, principalmente, sob os olhos de Paixão Côrtes, com o seu aval ou não! Trocou-se o alerta para a análise dos grupos: quem antes só escrevia passou a julgar, na pretensão única de identificar os grupos que simbolizavam nossas coisas da terra!

Tudo… tudo aconteceu sob seu aval! Que bom!

Vacaria de 92 reproduziu o que já aconteceu no Fenart 91, dessa vez amadurecido sob o embasamento do seminário e do livro “Danças gauchescas e a Carta de Vacaria” (existe inclusive aquela “lenda” que vários contam, de que o Paixão, no seu ânimo costumeiro e certeiro, teria levantado na mesa e gritado: É isso… é isso!). De 92 a 94 as danças também passaram a ser mais soltas. 96 surgiram as danças do “Achegas”. Se mesclou o chiripá a bombacha. Também vieram guaiacas bordadas e as faixas bordadas. A posterior vieram saiotes com chiripas. Dezembro de 98 as danças birivas. Voltaram a usar chiripás lisos. 2000 surgiram as calças birivas. 2001 ceroulas xadrezinhas e listradas. O uso do saiote por cima das calças birivas. Veio também o livro das “Gerações” (um dos marcos principais da nossa dança). 2002 veio “A moda” (complementando fundamentalmente o pioneiro “Ponto e pesponto”).

Veio o “Antigualhas cantilenas fandanguistas” (marco maior da referência musical das nossas danças, ainda esquecida por nossos músicos e instrutores). Também vieram as primeiras danças novas publicadas, junto com seus primeiros cursos oficiais (Mazurca marcada, Sarna, Queromaninha Mariquita e Balão caído). 2003 mais e mais danças. E a cada ano mais. Nos rodeios da época (Antônio Prado, São José e Flore da Cunha, principalmente) mitos estavam sendo postos abaixo, como: contracantos “festivaleiros”, uso de chotes “tipos nordestinos” (sem caráter gaúcho) em nossas danças, exageros de indumentárias adotadas por parte dos grupos (incluindo roupas femininas compatíveis ao corpo e à idade), falta de dinâmicas musicais, exagero de sapateios sem intenção interpretativa, levantes executados de forma errônea (quase prelúdios, sem função), batidas de violões executadas erroneamente (com influencias exclusiva dos conjuntos de baile da década de 50), e tanto e tanto mais.

Tudo amadureceu culturalmente, sem pretensões de “liberar” para agregar, mas na intenção de crescermos culturalmente e não plasticamente. Tudo isso a base de muito trabalho (um tanto briga, claro), de cultura e inserção repetitiva nos grupos, valorizando nossas coisas rurais e a capacidade de aprendizado de nossos grupos… todos os grupos!

Claro (e repito) que sempre há alguns que não entendem o amadurecimento do ambiente em que estamos (no nosso caso, o da dança) e se baseiam no concurso como fim maior e explicativo, criando normas e regulamentos para servirem eternamente a uma ótica única, que a posterior se identificará (claro) como passada. Pois, como diz o próprio Paixão: “Aquele que ficou não ficou, passou!” Temos de evoluir, principalmente se essa evolução seja para mais simples, com as identificações maiores de um dançarino com a terra em que está representando.

Em 2009, 2010 e 2011 Paixão Côrtes deu seus três últimos cursos de danças (até agora), sendo o de 2009 das danças novas, em Espumoso/RS, o de 2010 das danças do Manual e do Achegas, em Vacaria/RS, e o de 2011 em Canoas/RS de quatro novas danças suas (a ser publicada em seguida num magnifico livro já pronto, de sua autoria). Todas as danças revistas, amadurecidas e repassadas, de maneira oficial.

De tudo isso, digo… assim como em 1991 alguns não aceitaram a “boca no trombone” de Paixão Côrtes e resolveram seguir seus caminhos baseado no que tinham visto apenas até o ano de 1991 (dentro de suas visões e óticas pessoais), sempre é perigoso deixar de lado suas palavras, seus alertas e seus ensinamentos. Rumos podem se perder para sempre. Caminhos divergentes podem até servir para sugestão, mas nunca para normatização e fixação de um pensamento único ou ditatório, ainda mais se o próprio Paixão Côrtes continua alertando que algo está se perdendo.

Nem todos tem a mesma visão, porém como o caminho já se ramificou em 91 (sem volta), nossos padrões rurais de campanha, simples e comuns, devem ser mantidos para recuperação do que nos falta, sempre permitindo um puxão-de-orelha por parte do mestre, nos alertando de onde estamos pisando e onde podemos melhorar ao longo do tempo. Podemos, sim, amadurecer nossa autenticidade (que no dicionário se resume à palavra “verdade”), nossa identidade e nosso simbolismo com o local e a paisagem em que estamos inseridos… e, principalmente, como nossa gente simples.

Plástica nem sempre é cultura local!
Nosso povo historicamente é simples!
Paixão Côrtes sempre esteve certo… e sempre nos alertou!

Já imaginaram o que teríamos perdido (em cultura e inicio de revolução na dança) caso alguém tivesse “vetado” a dança do CTG Barbicacho Colorado e do CTG Minuano Catarinense, após a Vacaria 92, pelo simples fato de nunca terem visto aquilo?

Já imaginaram o nosso atraso caso alguém tivesse “impedido” a mescla de chiripás e de bombachas em 96, pela simples impressão pessoal de achar que aquilo estava “errado”?

Já pensaram no quanto estaríamos longe da nossa verdade caso alguém achasse desnecessário o uso do saiote com o chiripá e a bombacha a posterior, pela explicação básica de que nunca havia visto tal peça ou tal mistura?

Da mesma maneira alguém “rejeitar” (por nunca ter visto) ceroulas xadrezinhas e listradinhas, lenços na cabeça amarrados na lateral da cabeça, guaiacas bordadas com franjas, ceroulas de renda, dinâmica musical nas danças, dinâmica interpretativa de sapateios (tipos de sapateios e bate-pés) nas danças… e tanto e tanto mais?

Precisamos ainda (e cada vez mais) ouvir, ler e escutar o que Paixão Côrtes nos fala e alerta. Ele sempre foi certeiro e é o culpado de todas as mudanças e amadurecimentos que temos para nosso movimento e nossa dança… Graças a Deus! Temos, sim, de ser uma “trincheira cultural” e não uma “venda” tradicionalista mascaradas em forma de dança… ou plástica, apenas. Nossas origens, nossas raízes, tudo tem que ser respeitado, sob pena de lhe fazer o jogo aos que secularmente nos faltam com o respeito, achando que ainda somos colônias ou pelegos pra deitar e rolar encima! Devemos ser uma resistência para nos responsabilizarmos mais adiante com o que ajudamos a melhorar e trazer a tona (sem “arquivar” num fundo de baú velho o que “pessoalmente” acharmos desnecessários para grupos e instrutores). A dança precisa da gente por ser parte da cultura… cultura a ser recuperada. A cultura precisa da gente por ser parte da gente… estereotipo de gente a ser recuperada nas danças.

Muito se ganhou, porém muito também já se perdeu… percebam… e para não se “olvidar” ainda mais, é fundamental ouvir a voz das pessoas que sempre pensaram lá adiante, a frente do seu e nosso tempo, prevendo o que se perderia com o “comercial”, dentro de uma consciência que era pra ser natural de terra.

Pois… Tudo que a gente fala, às vezes, parece que já é tarde!
Escutem os que sempre foram certeiros!..
…A dança gaúcha agradece!!!

Salve João Carlos Paixão Côrtes!!!

(Foto: CTG Os Serranos – Caxias do Sul/RS – 1993)

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