Paya, Payada e Pajada

por Paulo de Freitas Mendonça
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A declaração da pajada como Patrimônio Cultural do Mercosul, automaticamente reconhece a todas as formas de improvisação do bloco, mas os chilenos, cuja nomenclatura desta arte é “paya”, preferem solicitar um reconhecimento com o nome pelo qual é conhecida a improvisação naquele país. A oficialização da Paya acontece naturalmente no dia 03 de maio de 2016, em Colônia do Sacramento, no Uruguai.

O Homem de marte deve estar se perguntando qual diferença que há entre paya, payada e pajada. Posso lhe responder que há mais semelhança do que diferenças. Tanto no sul do Brasil, no Rio da Prata quanto no Chile, a estrofe pela qual os pajadores se expressam é a mesma, a Décima Espinela. Sim, aquela estrofe que ele chama de redondilho e posteriormente Lope de Vega, passa a chamar de Décima Espinela, em homenagem ao seu ídolo. Segundo os historiadores, ela surge no livro Diversas Rimas, de Vicente Espinel, no ano de 1531, na Espanha. Outra similitude está nas temáticas de campo e questões sociais que são as mesmas. Talvez a improvisação chilena seja mais divertida do que as dos demais países. O humor daquele povo está bem claro na sua arte.

Já nas diferenças, está o estilo de indumentária dos artistas. A maioria dos payadores chilenos não se apresenta com a indumentária do huasso (pronuncia-se guasso), o que para nós seria gaúcho e para os rio-platenses, gaucho. Eles preferem se distanciar da questão tradicionalista, porque lá o que chamamos de rodeio, eles denominam Festa Patronal, e o improvisador chileno é considerado um cantor popular, acima desta ligação com o patrão. Outros detalhes que diferenciam são o instrumento e a melodia de acompanhamento do verso improvisado. Eles se acompanham com o guitarrón, um instrumento de vinte e cinco cordas, que tem uma característica e uma afinação própria e possivelmente tenha se originado de outro instrumento da cultura moura. Há uma série de melodias tradicionais específicas para a improvisação chilena, mas a mais executada é a “Comum”, uma melodia lenta para ser cantada despacito.

Mas por que paya e não payada, pode estar se perguntando o leitor, haja vista que esta é a nomenclatura da arte na Argentina e no Uruguai, países também de fala hispânica. Posso responder que a palavra Paya possa estar bem mais próxima da origem deste termo do que as demais e que payada e pajada sejam uma derivação desta ou de outra que tenha originado as três.

Não há uma convenção para a origem da expressão que dá título a nossa arte, mas um leque de possibilidades. Alguns autores afirmam que possa ter vindo de “Payo”, nome primitivo do habitante de Castela, outros de “Pago”, lugar onde se nasce ou “Pagueador”, fazedor de pago. Há quem sugira que tenha vindo do Quíchua “Palla”, nome dado por estes povos silvícolas aos cantores e cantorias das praças das aldeias. Ninguém sabe ao certo, mas arrisco a posicionar-me. Considerando que as palavras paya, payada e pajada não são conhecidas em outros continentes, senão no sul da América, creio que elas sejam originárias daqui e possam ter vindo do Quíchua, sim. Justifico esta minha tomada de posição dando voz a dois chilenos: O escritor, filósofo e folclorista chileno, Julio Vicunha Cifuentes, que nasce em La Serena, em 1º de março de 1865 e morre em Santiago, em 16 de outubro de 1936, registra em 1926, “umas pallas entre Clemente Ruiz e José Tejada”. Também cita que “o nome de palladores não convém a todos os bardos populares”, reforçando que esta alcunha somente se dá aos que improvisam. O poeta Pablo Neruda, que nasce em Parral, em 12 de julho de 1904 e morre em Santiago, em 23 de setembro de 1973, registra em seu poema “Oda a los Poetas Populares” a palavra com a mesma grafia que nos permite acreditar que tenha vindo do Quíchua: “Palladores, poetas humildemente altivos…”.

Independente de qual seja o étimo para a formação da palavra que dá nome à poesia oral improvisada do sul da América, é importante termos nitidamente a certeza de que se trata da mesma expressão artística e, embora com alguma diferença na grafia e na pronúncia, tratamos da mesma sagrada cultura de fazer verso de improviso, soltando rimas ao vento, sempre pensando o último verso para construir a estrofe na conceituada Décima Espinela. Que estamos irmanados e temos o privilégio de ver nosso trabalho de integração das nações, como Patrimônio Cultural Imaterial do Mercosul.

Jornalista, pajador e poeta

*NA FOTO: Pajadores chilenos Juan Carlos Bustamante e Jorge Castro com guitarrón de 25 cordas

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