Os mestres Improvisadores

por Paulo de Freitas Mendonça
Os mestres improvisadores
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As manifestações religiosas praticadas pelos católicos no período natalino são conhecidas como Cantigas de Reis, Reisadas, Folias de Reis, Terno de Reis, Cantoria de Reis, Chegadas dos Santos Reis, Cheganças, etc…
Quando da fixação do nascimento de Cristo em de 25 de dezembro adota-se o dia 06 janeiro como a data de visitação dos Reis Magos, Melchior, Baltazar e Gaspar ao recém-nascido, Jesus Cristo. Alguns autores afirmam que o Reisado tenha se originado no Egito, quando em 06 de janeiro comemora-se a Festa do Sol Invencível e adaptado, inicialmente, pelos romanos em 25 de dezembro, data de nascimento de Cristo, segundo os cristãos.

Readaptada aos folguedos lusitanos, a festa de reis acontece no período de 24 de dezembro, véspera de Natal a 06 de janeiro, dia dos Santos Reis, quando os grupos de cantadores e instrumentistas vão de casa em casa, recriando a visita dos Três Reis Magos a Jesus. Antes da transformação comercial do Natal, com Papai Noel e outros engodos, as comemorações são através dos ternos de reis. Segundo a maioria dos estudiosos, estas manifestações chegam ao Brasil através dos imigrantes luso-açorianos. São consideradas folclóricas ou tradicionais em território brasileiro e ainda estão vigentes em diversas cidades, especialmente em localidades rurais. A apresentação se divide em três etapas: a chegada, quando saúdam os donos da casa, pedindo permissão para entrar. “Ó da casa, nobre gente / escutai e ouvireis, / da parte do Oriente, / são chegados os três Reis”; a segunda etapa é a louvação ao Menino Jesus, junto ao presépio. Neste momento os anfitriões oferecem mesa farta aos visitantes, agradecendo a bênção da visita; a terceira é o agradecimento pela recepção e a despedida.

A diferença entre as “cantigas de reis” e as “janeiras”, cultura popular vigente em Portugal, é que esta segunda é a circulação de grupos de pessoas pelas ruas, cantando em anunciação do nascimento de Jesus e desejando feliz ano novo. Estes grupos vão de porta em porta pedindo aos moradores as sobras das Festas Natalinas. Estas sobras hoje são substituídas por dinheiro. Já as cantigas de Reis são visitação a casas específicas em rememoração aos Reis Magos, como já vimos anteriormente.

Neste momento o homem de marte deve estar se perguntando o que tudo isso tem a ver com a improvisação. Já estou para fazer esta elucidação. O Terno de Reis é composto por cantadores e instrumentistas e coordenado pelo seu personagem mais importante, o Mestre, também conhecido em algumas regiões como Embaixador. Este é o improvisador do grupo tradicional, embora atualmente seja comum encontrar Ternos de Reis sem improvisadores, mas isto começa a ser algo que se distancia do formato original.

Os cantares de reis são obras de inspiração bíblicas, memorizadas, mas a improvisação sobre estes mesmo temas pode acontecer a qualquer momento, porém a situação mais inusitada e interessante da improvisação se revela quando há o encontro de dois grupos de cantadores na mesma residência. Segundo a tradição, não podem estar dois grupos dentro da mesma casa. No entanto se um grupo chega e há outro já dentro de casa, começa o embate poético entre os mestres de cada grupo, naturalmente, um dentro da casa e outro fora. Se neste confronto de poesia oral improvisada, normalmente feita em estrofes de quadras, o grupo chegante vencer, o que estava dentro da casa se retira e cede o espaço para o outro entrar. Se acontecer o contrário, o chegante se considerar vencido, vai cantar noutra residência, sem o privilégio de entrar e abençoar aquela família. Creio que daí tenha surgido o ditado popular, “vai cantar noutra freguesia”.

No Rio Grande do Sul são frequentes os Grupos de Terno de Reis nas mais diversas cidades, mas com forte destaque em Santo Antônio da Patrulha, Osório, Palmares, Mostardas, Taquara, Gramado, Canela, Gravataí, entre outras. Porém é importante ressaltar que a tradição está presente em diversos estados brasileiros.
O consagrado grupo musical Os Mirins registra a composição “Terno de Reis” em seu disco Imagens do Sul que confirma as três etapas citadas acima e a existência de improvisação neste tipo de cantoria. Vejam a letra e o vídeo:
Terno De Reis

(Autores: Francisco Castilhos e Alziro Adalberto de Castilhos)

Meu senhor dono da casa,
Meu senhor dono da casa os três reis que vão chegando…

Esta canção quem cantava era o meu velho pai
Com terno marchando até hoje ainda sai
De dezembro a janeiro parando no dia seis
Cantando de porta em porta a fada dos santos reis

Já que o senhor abriu a porta,
Já que o senhor abriu a porta e está nos escutando
Pedimos sua licença, ai,
Pedimos sua licença, ai pra poder entrar cantando, ai.

E na frente do presépio contemplando o salvador
Improvisavam seus versos com carinho e muito amor.
Falavam de sua fé de ternura e querer bem
Parece que Jesus Cristo estava cantando também.

Vamos parar de cantar, ai,
Vamos parar de cantar, ai para este povo estimado, ai,
Entregando sua família, ai,
Entregando sua família para o meu Jesus amar

Nosso terno vai embora

O pajador, trovador e poeta Adão Bernardes também ratifica a existência de improvisação dos mestres em seu poema em décimas, “Cantigas da Anunciação do Supremo Advento”. Reproduzo aqui uma estrofe:
“O presépio é o cenário
onde os mestres improvisam
na cantiga nos avisam
que o supremo mandatário
num gesto extraordinário
de confiança e de bondade
pra nos mostrar a verdade
a luz e o melhor trilho
encarregou a seu filho
de salvar a humanidade.”

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