Os Cantores do Divino Improvisam

por Paulo de Freitas Mendonça
Cantores do Divino
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Na exposição passada falo sobre os tipos de improvisação no Rio Grande do Sul, introduzindo o texto citando os cantadores do divino como improvisadores. O “homem de marte” deve estar se perguntando quem são os cantores do divino? Por isso é importante explicitar que com colonização hispano lusitana na América são introduzidas tradições importantes da Península Ibérica e do arquipélago dos Açores, como as cantorias do divino e os Ternos de Reis.
Estas manifestações culturais, vindas especialmente dos Açores se estabelecem em diversos estados do país, mas nas cidades gaúchas estão mais preservadas nas regiões sul e litoral do Rio Grande do Sul.

É importante ressaltar que o arquipélago dos Açores tem em sua colonização, forte expressão migratória dos chamados novos cristãos, judeus e muçulmanos convertidos, e de populações do oriente médio, nascedouro do cristianismo. Os descendentes destes pioneiros açorianos, depois, vêm desbravar o Brasil. Também se somam as evidências das pregações através do chamado contrafactun, as transformações de canções profanas em sentidos sagrados, procedimento muito usado pela Companhia de Jesus em seus diversos territórios de sua missão.

A Festa do Divino é a festa da fartura, e o seu motivo central é que o Espírito Santo abençoe e que proteja as terras com boa colheita. Por isso há fartura de pão, carne, vinho e cantoria. Nos Açores é cultura vigente com pequenos grupos que vão de casa em casa com suas cantigas, acompanhadas de tromborete e címbalos, cantando os feitos do Divino Espírito Santo e improvisando versos. Conheço esta manifestação na origem por ter participado dos festejos de São Carlos, na Ilha Terceira. NO decorrer da festa em Louvor ao Divino Espírito Santos, nós os improvisadores visitamos as famílias, homenageando os anfitriões com versos de improviso e recebendo sua cortesia com mesa farta.

No Brasil se mantém as diversas manifestações açorianas na maioria dos estados da federação, mas na maioria dos grupos já não se fazem presentes os improvisadores. Em vários países hispano falantes esta tradição é vigente. No Chile, por exemplo, é muito expressiva, especialmente no vale central do País, região em torno da capital, Santiago, com os cantores do divino que normalmente também são pajadores. Possuem uma tradição poética que chamam de “Canto a lo Poeta” que se divide em canto ao Humano e ao Divino.

Trago a luz o Canto ao Divino, que hoje nos interessa, para dizer que os cantores do Divino cantam versos de memória sobre temas religiosos, o antigo e o novo testamento, além de temas de inspiração bíblica, mas também improvisam uma décima de saudação e outra de despedida. Chamada de “Décima Enquartetada”, o que par nós rio-grandenses é a “décima glosada”, ou seja uma quadra e depois quatro décimas cada uma encerrando com um verso da quadra. Somando-se a essas quatro décimas eles acrescentam mais duas estrofes, um de saudação e outra de despedida. Normalmente estas duas são improvisadas. A introdução desta tradição chilena está creditada à Companhia de Jesus, que para catequisar se utilizou da décima e da quadra.

No Brasil, os improvisadores destas festas religiosas ainda se encontram nos ternos de reis, cujos mestres possuem a incumbência de improvisar numa situação inusitada e interessante, mas isto nós vamos conhecer no próximo texto. Também vamos traçar um paralelo destas cantorias de Reisado com as Janeiras, tradição ainda vigente em Portugal.

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TAGS: cantores do divino, improviso, Pajada,

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