O Serrote

por Diego Muller
Paixão Cortes
crédito: Emílio Pedroso

Antes da presidência de Julio de Castilhos em nosso estado (época em que se podou, digamos assim, as pretensões políticas das colônias e colonos alemães, cada vez maiores nos sul) as estâncias gaúchas e as colonias de imigrantes dialogavam quase que em um mesmo ambiente social sulino. A posterior a isso cada ambiente ficou em seu canto, numa sociedade até hoje separando “colonias” e “estâncias”. Em paralelo a isso, nessa época, o RS nunca havia recebido danças e ritmos europeus sem passarem antes pela capital mundial da cultura: Paris. Mas pela colonização em massa, principalmente germânica no RS, algumas peculiaridades se criaram em nosso estado nesse signo.

Porto Alegre era quase que uma “Paris” para os gaúchos dessa época. Danças e ritmos diversos, junto com danças vindas dos “kerbs” alemães ganhavam o seio da nossa capital, com erros que eram naturais à época e que marcariam nossos ritmos e nossas danças para sempre… como o fato de os da capital chamarem a “polka” de “shottisch” (a posterior chotes e simplificando em chote) e o “shottisch” chamando de polka… esse último que é título e provocante desse capítulo. Curioso, não: nosso chote é em passo de polca, e nossa “polquinha” é em passo de marcha, como era o original “shottisch” europeu. O porto-alegrense, assim, criou a moda baseada na colonização… e a lançou de volta às estâncias e ao povo rural e campesino de nosso lugar, onde ganhou nosso sabor, cheiro de terra e nosso tempero mais regional possível… e daí então que surgiu o popular SERROTE.

Era a tradicional “polquinha gaúcha”.

O tema original vem da Boemia, região do Império Astro-Húngaro. Hoje Tchecoslováquia. Ritmo que chegou a Praga e lá virou dança de salão. Se espalhou pela europa e pela Alemanha. A nominação vem de “pulka”, que significa meio passo, ou sobre-passo. Era um tema de propriedade da Europa central. A “pulka” chega a Paris, Londres e Viena. E daí para o mundo. Porém aqui, atalhou: veio através do Alemão direto. Cortou caminho (As confusões quanto ao nome e ao ritmo vieram a posterior… e em Paris elas já existiam também)!

“Ela conserva o andamento binário, porém sua melodia se reveste de muitas notas repetidas, graus conjuntos, tendo os tempos rítmicos singelos, constituídos, ordinariamente, de duas colcheias, uma colcheia e duas semi-colcheias ou quatro semi-colcheias. Pode-se considerar, na estrutura rítmica, com as características das polcas européias”! (Texto da Professora Dulce Martins Lamas, da escola nacional de música do RJ, falando sobre a polca sulina.)
As músicas coloniais eram muito simples, copiadas por nosso povo rural. Eram temas adaptáveis ás gaitas (também vindas com o imigrante alemão, inclusive) e de mínimos recursos harmônicos. Nossos temas rurais atuais, de cordeona de oito-baixos, são muito próximos a essa identidade citada… é parentesca, clara. Porém (ou talvez por isso), eram temas muito animados e de grande intensidade nos bailes campechanos do RS. Todos dançavam!

A início, o homem regional chamava de “polkinha” aquele tema que o Porto-alegrense chamava de “polka” erroneamente. Talvez um tanto pejorativo. Já inserida e folclorizada no nosso ambiente campesino, por sua animação e simbolismo a não deixar ninguém sentado no canto das salas de bailes, sem ninguém resistir a seu jeito contagiante, era chamada de “limpa-banco”… nomenclatura popular até hoje em dia, no ambiente rural.

Nas missões se chamava principalmente de “contrapasso”, mais tarde gravada inclusive com o nome de “polca missioneira”, para diferenciar da tipologia da “polca paraguaia” (essa sim popular com o nome de polca, “simplesmente”). O SERROTE (contrapasso), lá nas Missões, possuía um “contra” no acompanhamento dos violões, o que é característica própria de algum jeito antigo de se tocar… popular por toda a região missioneira. A baixaria da acordeona (oito-socos), inclusive, era também característica, num ronco que também sugeriria o vai e vem de um serrote. Coisa do nosso homem de fora!
Possivelmente o SERROTE era assim chamado nas regiões de matarias e de transporte de madeirames, encostas de matos, etc. Possível!

Mas… eram todas a mesma “marca”, o mesmo tema e a mesma simbologia!
Era dançada em passos de marchas, porém não “marchados”. Não era como se estivesse caminhando. A nomenclatura existe apenas para identidade, não para execução exata. Nosso homem sulino pegou as referencias e transformou elas para nosso modo particular e regional de o desenvolver, seguindo o embalo musical que o tema gerava. Assim era o nosso passo-de-marcha, que se caracterizava por um modo bem arrastado de se realizar. Nossa valsa também possui essa mesma característica, diferente da valsa européia e colonial. Só o homem daqui o dança assim, arrastado, e nosso homem regional dançou sempre assim.

Dessa característica, então, nascida e adquirida por nós, nasceram outras nomenclaturas que não são alienígenas e todos conhecem: “gasta-sola” e “arrasta-pé” (não o nordestino, nada nem perto)… identificando a característica do passo de marcha sulina.

Era assim: O pé arrastava sobre o pó da sala varrida, sobre o assoalho de madeira, sobre o chão batido… coisas de nosso povo!

Para finalizar, e chegar ao ponto, o ruído característico desse movimento (movimento que se fosse um passo de marcha característico europeu, não daria), imitava o som de um SERROTE, roendo, raspando, barulhento, num assoalho de madeira… durante uma dança inteira. Imaginem a beleza! O som do calçado raspando no piso produzia esse barulho… que passou a dar característica ao nome do ritmo, e à dança a posterior, já nos bailes sem coreografias específicas… os de danças de salão: era o SERROTE!
Os temas enlaçados no RS eram geralmente lentos e bem alegres. Não se pode confundir “velocidade” com “animação”… eram coisas independentes. Um tema lento facilitava a conversa entre o homem e a mulher, nessa modalidade de danças que permitia esse contato da palavra falada. Os rurais gaúchos reclamavam de temas ligeiros, fazendo-os perder o foco na mulher em si. Acordeonistas, como Gilberto Monteiro, são peritos em temas antigos já mortos em nossa sociedade gaúcha… este citado inclusive possuindo um video de uma palestra-musical sua no nordeste, falando do “contrapasso” (ou Serrote) e de outros ritmos nossos, como tocado antigamente. Sendo assim, um tema lento, era impossível dança-lo com a planta dos pés no ar, tornando o passo cansativo por demais. Assim, para evitar esse desconforto, o homem do nosso estado o arrastava, gerando o som característico, som esse que a posterior deu o nome também característico… e próprio… só nosso!

Obs.: Sempre aprendemos que devemos olhar e aprender com os mais velhos e antigos. Olhem um casal antigo dançando uma “polkinha” e observe. Aquilo é resquício rural da nossa característica antiga de bailar o SERROTE!
Noel Guarany recolheu, adaptou e gravou o tema do folclóre, intitulado “Porto Alegre ingrato”, típico SERROTE antigo, na cadência propícia a um ambiente de rancho sulino e seu arrastar de solados, abraçado em uma dama brejeira e bela.
Esse passo de SERROTE, GASTA-SOLA, ARRASTA-PÉ, CONTRA-PASSO, LIMPA-BANCO, ou simplesmente POLQUINHA (dançada arrastada, rente ao chão, sem levantar o passo-de-marcha do piso), característica específica, única e folclórica do nosso homem do RS (que devemos valorizar), está retratada e registrada nas danças da SARNA/2002 e JARDINEIRA/2011, com pesquisas de João Carlos PAIXÃO CÔRTES, descritas em livros/livretos (para quem quiser entender) e já transmitida por ele em seus cursos passados.

O restante, é figura européia e citadina, sem cor e muito menos nenhum sabor gaúcho (Não é por nada que Serrote e Limpa-banco, é muito mais “gaúcho” que polquinha)!!!

É folclóre puro isso!

Vale a pena aprender e divulgar, sem modismos e perda de características!!!

“Adeus, adeus, meu Porto Alegre ingrato,
Vou-me embora desta terra, morar no meio do mato!…
Eu vou-me embora, porque eu já disse que vou:
Eu aqui não sou querido, lá na minha terra eu sou!”
(Tema do folclóre)

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