O Reconhecimento da Pajada

por Paulo de Freitas Mendonça
Encontro de pajadores com a ministra
crédito:

O Reconhecimento da pajada como o primeiro patrimônio imaterial do Mercosul é uma campanha que dura cerca de sete anos de trabalho. É um anseio da classe dos improvisadores mundiais desde muito tempo, porém inicia com um trabalho de conscientização e de união, no Chile, em 2008, quando um grupo de improvisadores de diversos países está participando do Encontro de Casablanca, no qual Jadir Oliveira e eu representamos o Brasil. Tenho a felicidade de, no decorrer de um almoço, propor fazermos um trabalho de pesquisa, cada um em seu país, e com isto buscarmos reconhecimento da Unesco para a poesia oral improvisada como patrimônio imaterial da humanidade, haja vista que é considerada a arte mais antiga e ao mesmo tempo mais contemporânea porque versa sobre a atualidade com estrutura poética tradicional.

Minha proposta é aceita, mas não consegue consolidar-se por falta de contribuição dos companheiros. Todavia, um dos participantes argentinos, o jovem pajador David Tokar, chega a seu país e encaminha a ideia para o setor de cultura da sua cidade de San Vicente, na Província de Buenos Aires e encontra o apoio do diretor de cultura Javier Carbone. Dentro de algum tempo, o município declara a pajada como patrimônio imaterial da cidade. Em 2012, o Uruguai, através da municipalidade de Montevidéu, integra-se à proposição e realiza um seminário de estudos nos dias seguintes aos da Semana Crioula Internacional, com os improvisadores que participam do evento, sob a liderança do músico Edgardo Muscarelli. Em 2013, o executivo de San Vicente encaminha o mesmo processo a nível nacional, através da então Secretaria Nacional de Cultura da Argentina e os técnicos federais de cultura vislumbram o reconhecimento do Mercosul. Começa um longo trabalho pesquisa documentada, reuniões entre práticos e teóricos dos países do bloco e trabalho de convencimento em todas as nações integrantes.

Quando a Argentina transforma a Secretaria em Ministério da Cultura, a proposta recebe o apoio incontestável da ministra Teresa Parodi e realiza, em abril de 2015, o primeiro encontro de pajadores do Mercosul, na Universidade de Avellaneda, com aprofundamento do debate. Este encontro conta com participações de Argentina, Brasil, Chile, Cuba, Venezuela e Uruguai. Os representantes da pajada rio-grandense e brasileira, somos Pedro Junior e eu. Este ato se torna fundamental para consolidar o intento. Embora todos os países do bloco reconheçam a importância da pajada como patrimônio Imaterial do Mercosul, são considerados proponentes a Argentina e o Uruguai com a concordância dos demais ministérios de cultura das nações integrantes do bloco. O ato de reconhecimento e de aprovação é assinado na 38ª reunião de ministros do bloco, dia 18 de junho de 2015, em Brasília, capital do Brasil. A representante da ministra argentina Teresa Parodi no ato é a diretora nacional de política cultural e cooperação internacional, Mónica Guariglio. Representa o Brasil, o ministro Juca Ferreira. Também estão representados no ato, Equador, Bolívia, Chile, Paraguai e Uruguai.

No dia 6 de novembro do mesmo ano acontece na capital do Paraguai, Assunção, o primeiro Festival Cultural do Mercosul, no Teatro Guarny. Dentro da programação deste evento, os representantes da Argentina, Brasil, Chile e Uruguai, recebem das mãos da ministra de cultura daquele país, certificado de reconhecimento da pajada como o primeiro patrimônio imaterial do Mercosul. Desta feita estou solo, representando nosso país. Pela Argentina estão Marta Suint, David Tokar e Juan Alberto Lalanne, pelo Chile, Jorge Céspedes Romero ( Manguera) e pelo Uruguai, José Curbelo e Juan Carlos Lopez. Todos nós somos conscientes de que representamos não só os pajadores naquele ato, mas também todos os improvisadores não só do Mercosul. Ali se vê representada a poesia oral improvisada, considerando que somos componentes de um grupo de cultuadores de um sistema integrado da poesia oral, independente da nomenclatura que esta arte possa ter em cada país ou região. Ao meu modo de entender, o reconhecimento da pajada é um aporte para a trova gaúcha, o partido alto, o cururu, o calango, a cantoria, o repente, a embolada, o maracatu rural e de baque solto e outras denominações que possam ter a improvisação brasileira. Também estendo este reconhecimento ao trovo espanhol, a cantoria portuguesa, a trova borícua porto-riquenha, o bertsolarismo basco e outras formas de improvisação mundial.

Foto: Improvisadores de seis países com a então ministra da cultura da Argentina, Teresa Parodi.

teste
TAGS: Pajada,

  Veja também

interpretação na dança

A interpretação na dança!

“A interpretação da dança é da maior importância e validade, pois traduz as características de uma época… a expressão de vida de uma coletividade… o desenvolvimento socio-cultural de uma comunidade… enfim, o folk, que é o próprio sentir, agir e reagir natural do povo!” (João Carlos D´Ávila Paixão Côrtes) Depois de uns dias um pouco…

A harmonia na dança

Harmonia é o substantivo feminino com origem do idioma grego e que indica uma “concordância” ou “consonância” tanto a nível artístico como a nível social, tanto por história da palavra quanto por significado da mesma. Em resumo, harmonia é o resultado natural da verdade: É um conceito clássico que se relaciona às ideias de beleza,…

Arquivo Paixão Côrtes

Sapateios – Parte 2

“Que a dança é uma diversão e não uma obrigação. Quer dizer: é prazeroso, tanto para a dama, pra prenda, quanto pra o homem! (…) O que nós estamos vendo, naturalmente, agora, são espetáculos, são shows. São bonitos e alegres, mas não são tão autênticos…” (João Carlos D´Ávila Paixão Côrtes) Nos elementos da nossa dança,…

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
Vertentes