O improviso na Polca de Relação

por Paulo de Freitas Mendonça
Meia canha
crédito: Meia canha

A Polca de Relação (polca de relación, em espanhol) é também conhecida no Rio Grande do Sul como “meia-canha” ou “meia-cana”, ou ainda “polca de cantar” e “havanera das damas”, em algumas regiões do Estado. Em São Paulo, na região desbravada pelos tropeiros, esta dança é conhecida como “guitarra” por influência espanhola, na citação “pare la guitarra que voy decir mi relación” ou ainda “arrasta-pé”. É uma dança de origem da Península Ibérica, trazida para a América através dos colonizadores e disseminada no sul do Brasil, principalmente pelos tropeiros. É vigente em diversos países com pequenas variações, porém mantendo neles, o formato de dança circular e os versos em quadras, no centro do salão. Seus versos normalmente são em heptassílabos (octossíabos em espanhol).

Aqui cabe uma explicação ao homem de marte. Os versos, tanto para os de fala lusa quanto para os de fala hispânica possuem a mesma medida, o que muda é a forma de contagem das sílabas sonoras, o que chamamos metrificação. A cultura portuguesa, e consequentemente a brasileira ou de outros países que falam português, adota a contagem até a última sílaba tônica, já a cultura Espanhola adota a medida até a última sílaba do verso.

Exemplo em português: Quan / do / can / to / me / ia / ca /nha
……………………. 01 / 02 / 03 / 04 / 05 / 06 / 07 / 00

Exemplo em espanhol: Cuan / do / can / to / me / dia / ca / ña
…………………….01 / 02 / 03 / 04 / 05 / 06 / 07 / 08
Bueno, seguimos… Os pares estão dançando e alguém solicita que parem a música, o homem diz um verso para a mulher, segue a música por alguns acordes e se interrompe novamente para que a mulher responda, também em verso. Segue o baile até a nova interrupção e outro casal possa contrapontear versos, e assim por diante. Estes versos são dispostos em estrofes de quadras, normalmente em ABCB, ou seja, com rima nos pares, deixando os ímpares como versos brancos, sem rima. Ou também em ABAB, rimando o primeiro com o terceiro e o segundo com o quarto verso. Embora hoje se use somente versos de memória na maioria das apresentações artísticas, na cultura tradicional estes versos podem ser decorados, mas muitos são de improviso. Os versos exclusivamente memorizados em grupos de danças são aceitáveis por serem representações do tradicional para o espetáculo.

No entanto, no âmbito original, os improvisos aparecem no momento em que um verso seja desafiante e requeira necessária resposta à altura. Também são comuns os momentos em que uma pessoa não se sinta competente para versejar ou por timidez solicite amparo no verso de outro. Surge aí a preciosidade do improviso quando os poetas repentistas relatam a cena inusitada com criatividade e graça. Ou ainda, quando os bailarinos querem mostrar-se com habilidade de improvisação na atração de seu par e a natural concorrência se estabelece para ver quem improvisa melhor.

Voltando a analisar as apresentações contemporâneas desta dança, noto na maioria das observações que faço dos atuais grupos, que cometem três erros crucias: o de exagerar na expressão campeira, às vezes agressiva, chegando a parecer grosseria e mau gosto, haja vista que o gaúcho por mais rude que seja, sempre é um homem respeitador, especialmente para com a mulher, e esta, normalmente demonstra-se ser recatada, diante do par, especialmente na dança; o outro equívoco é pura falta de conhecimento poético e indisposição à pesquisa, pois é lamentável se observar o pronunciamento de versos quebrados, ou seja, versos de medidas diferentes dentro da mesma estrofe, algo inaceitável no mundo da improvisação; e, um último não muito comum, mas existente nos grupos que representam esta dança, é de o verso de resposta não ser resposta e sim algo sobre outro tema qualquer. O bonito da polca de relação é o jogo de desafio e resposta.

Para encerrar, descrevo duas estrofes que servem de exemplo do tradicional canto da Polca de Relação, versando sobre a mesma temática, expressão natural da improvisação:

1) Quero dizer e não digo / E, estou sem dizer, dizendo / Queres querer ou não queres? / Estou sem querer, querendo./

2) Queres dizer e não dizes / E estás sem dizer dizendo / Queres querer e não queres / E o tempo é que estás perdendo. /

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