O Homem de Marte Está Confuso

por Paulo de Freitas Mendonça
Pajadores
crédito: Divulgação

No primeiro texto me comprometo a “escrever ao homem de marte”. Esta expressão é uma metáfora usada nos meios acadêmicos para definir o formato que deve ter o texto de um jornalista. Precisa considerar que seu leitor não tenha conhecimento anterior sobre a sua abordagem e, assim, dar-lhe todas as informações para sua compreensão. É a imagem de um homem de outro planeta que ao chegar na terra, pega o texto, sem ter contatado algum com o assunto. A decisão não me parece exagerada porque a improvisação é um mundo à parte e sofre muitos atos de preconceito por falta de conhecimento da população em geral. É considerada arte menor pelos que a ignoram e superior pelos que a conhecem com profundidade. Justamente por este motivo é que aceito o desafio de escrever sobre um tema que tem público reduzido. Tento oportunizar às pessoas o conhecimento detalhado de algo que faz parte da cultura de todos os povos e os menos avisados pensam se tratar de algo regional e de menor importância.

Procuro enfatizar os detalhes em cada texto para que sejam bem entendidos, mas creio que esmiuçar mais pode facilitar o entendimento de outros textos.
O improvisador tradicional improvisa por estrofes rigidamente definidas, em versos metrificados (simétricos), rimas consoantes e em contraponto. Verso quebrado no improviso é falha grave e caracteriza a falta de qualidade do improvisador.

Procuro descomplicar para o homem de marte este parágrafo acima:
Estrofe é o conjunto de versos dispostos de forma ordenada, com unidade de conteúdo e ritmo que produzem um poema, neste caso, de improviso, já que nosso tema é a improvisação. Por exemplo, a estrofe da pajada é a décima (dez versos), já a da trova é a sextilha (seis versos) e da Estilo Gildo de Freitas é a nona (nove versos).

Veja os tipos de estrofes e suas nomenclaturas: 01 verso – monóstico, 02 versos – dístico, 03 versos – terceto, 0 4 versos – quadra ou quarteto, 05 versos – quintilha, 06 versos – sextilha, 07 versos – septilha, 08 versos – oitava, 09 versos – nona, 10 versos – décima. As que possuem mais de dez versos são chamadas de estrofe irregular.

Todo o improvisador deve metrificar seus versos, ou seja, fazer uma estrofe de versos de mesma medida, da mesma quantidade de sílabas sonoras. A contagem destas sílabas sonoras, chamamos de metrificação ou escanção. No texto anterior faço uma exemplificação desta questão e explico a diferença da metrificação para os de fala lusa e os de fala hispânica. A palavra “simétrica” vem de simetria e na poética é usada para definir verso com mesma simetria, mesma medida, mesma metrificação, mesma quantidade de sílabas. Um verso quebrado é “assimétrico”.
Veja o exemplo de versos simétricos de sete sílabas, os setissílabos, também chamados de heptassílabos ou redondilha maior:
Quando canto, estou feliz / Porque nasci pra cantar.
Agora, veja exemplo de versos assimétricos, sendo o primeiro verso com menor número de sílabas, ou seja, verso quebrado em se tratando de uma improvisação em heptassílabos:
Eu canto feliz (05 sílabas) / Porque nasci pra cantar. (07 sílabas)
Ratifico agora, a questão da rima consoante. É aquela que tem igualdade de som desde a vogal da última sílaba tônica até o fim da palavra: mundo – fundo – fecundo, ciência – experiência – consciência, prato – retrato – acato…

E, finalizando a explicação do parágrafo, a palavra contraponto por si só já se explica, é o embate entre dois contendores na improvisação. Porque há um grau de dificuldade improvisar solo e outro, bem superior, improvisar em contraponto, quando o oponente pode criar armadilhas poéticas que exijam rapidez de raciocínio, conhecimento, perspicácia e principalmente criatividade.

Estes conhecimentos básicos citados são alguns dos mais primários de todos os tantos e necessários para que um improvisador possa ingressar no restrito círculo dos repentistas experientes.
Há outros detalhes que vamos desvendando a cada página para que os leitores possam entender esse mundo estranho da improvisação e principalmente para que cada um que adquira esses conceitos, possa com o tempo, ir se tornando simpático à poesia oral improvisada e haja renovação do público que entende esta arte com a verdadeira importância que ela tem. É a mais antiga e a mais contemporânea, porque versa com estrutura tradicional sobre o mais atual.

No vídeo: Pajada Internacional entre sete países, em Montevidéu, no Uruguai.

Legenda da foto: Pajadores de Brasil, Argentina e Uruguai em San Clemente de Tuyu, na Argentina.

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