Entre Floreio e Pajada

por Paulo de Freitas Mendonça
Jayme Caetano Braun
crédito: Divulgação

Com o advento do desencarne de Gustavo Guichón, na Argentina, dia 26 de julho de 2016, vem à tona um termo e a necessidade de esclarecimento. O que é floreio (floreo, em espanhol) e o que diferencia um floreio de uma pajada? (É importante não confundir com floreo mexicano que é uma atividade de manuseio alegórico do laço e nada tem a ver com poesia improvisada.) Em virtude disso, vamos desvendar o mistério que separa ambas as denominações. Nem todo floreador é pajador e nem todo pajador se propõe a ser floreador.

A pajada, sabemos, é o embate poético entre dois ou mais improvisadores, quando se oportuniza um contraponto de ideias, a tese e a antítese. Nesta dialética improvisada se mede o poder poético de cada contendor, a criatividade, o talento para o debate, o conhecimento, a cultura e principalmente a desenvoltura na arte de improvisar. O floreador é o improvisador que normalmente atua só e diz uma estrofe entre uma gineteada e outra. Tem seu valor enquanto atividade artística, precisa saber improvisar, ter criatividade e cultura, mas não lhe é imposta a necessidade de contraponto, perguntas e respostas e ninguém lhe observa se um verso ou outro possa ser de memória ou não. O floreador observa cada atuação dos ginetes na cancha de gineteada e diz um verso ilustrando a cena. Há quem tenha muitos versos de memória e isso não lhe é imputada como falha artística, já ao pajador isto é visto como inaceitável. Existem muitos pajadores que também são floreadores, mas há uma maioria de pajadores que não atua como floreador e prefere o contraponto.

Dito isto, me parece que fica clara a diferença entre floreio e pajada. Pode o leitor estar se perguntando se o que se faz até o ano 2000, no Rio Grande do Sul, então não é pajada e posso responder que sim e não. O que Jayme Caetano Braun faz a maior parte da sua vida é um improviso solo em décima. Poucas vezes se tem registro de ver Braun improvisando com outro pajador. Dá pra citar suas atuações de palco em contraponto: duas vezes com Sandálio Santos, uma vez com Argentino Luna, uma vez com Manoel Rosa (El Bruxo) e talvez se resumam a estas tão somente. Porém isto não lhe tira o mérito do maior pajador de todos os tempos no Estado, pois é facilmente esclarecido quando nos damos conta que Braun é pajador único no Rio Grande do Sul por cerca de 20 anos e quando surgem os novos pajadores, dentre os quais me enquadro, fazem improvisos solos, da mesma forma. O primeiro registro de pajada em contraponto que se tem no Rio Grande do Sul acontece em Passo Fundo no Te-Déum de Payadores da América Latina, no ano de 1993.

No Rio Grande do Sul não é comum o floreio nas gineteadas como acontece naturalmente no Uruguai e na Argentina. Aqui há algo semelhante nos festivais. Quando improviso uma décima ao apresentar um artista nos palcos estou fazendo um floreio, não uma pajada, apesar de ser em versos improvisados. Esta manifestação implantada nos festivais de música migra para os concursos de dança e demais eventos do gênero. Isto é um floreio. É o que o peão de campo faz ao encilhar o cavalo, diz o verso que lhe vem à mente. É o mesmo que o trabalhador da lavoura faz ao carpir o eito, que o tropeiro faz na longa estrada de seu ofício, o que o cavaleiro andejo faz ao cruzar por alguém que queira prestar-lhe uma saudação, o que na literatura está muito bem posto em Capitão Rodrigo quando chega a Santa-Fé, por exemplo.

Os Floreios são estrofes soltas que o improvisador pronuncia numa situação qualquer, atividade artística que se torna conhecida nas gineteadas do Rio da Prata. As pajadas são contrapontos entre improvisadores, tais quais as trovas, as cantorias, as emboladas e os desafios de diversas modalidades da poesia oral improvisada.

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