Cemitério de elefantes

por Diego Muller
o tempo e o vnto
crédito: Divulgação

Dizem que os elefantes sabem exatamente onde irão morrer, sem mesmo nunca precisar ter estado lá.
Pois é… e na mesma semana que recebo o convite inesperado da amiga Tânia Goulart, para tentar uma coluna neste novo e grato espaço da nossa cultura regional, o ABC do gaúcho, fiz uma postagem nas redes sociais de um texto de um parceiro e também amigo, poeta de Jaguarão, Martím César Gonçalves, chamado “Cemitério de elefantes”. Pela noção de importância que o texto nos dá, com essa exatidão ainda em mente, me “apropio” do título de seu texto para poder também nomear, de maneira homônima, o inicio desta coluna de estréia… pois, os elefantes sabem exatamente o local de sua morte, sem nem ao menos precisar ter estado lá!

Mas como nasceu a idéia de uma coluna cultural, tradicionalista e folclórica do Diego?

Bom, meu chão é dança e música… basicamente nessa ordem. E na dança realmente tenho mais graxa pra queimar, é onde acho que está meu maior talento e onde creio que posso opinar e dar bons caminhos à movimentação cultural que ela proporciona. E foi justamente nessa caminhada, após o II Fegadan, em outubro de 2015 (evento novo de danças gaúchas, organizado pelo MTG do RS, em Caxias do Sul), rumando para o palco de um Enart de trinta anos, que uma infinidade de amigos e conhecidos me questionaram mais sobre como era nosso movimento de danças nas décadas de 70 e 80. Claro que não fiz parte disso tudo como dançarino: nasci em 1980. Mas meu CTG, o Brazão do Rio Grande, de Canoas, meus pais e muitos conhecidos estavam lá. E sei de musitas histórias, claro. Tantas inéditas. Inclusive muito do que se perdeu nos registros oficiais eu sabia, tinha e repassei adiante a quem pedia e precisava. E minha curiosidade foi aumentando. Não só minha, como a de muitos.

Até que fui obrigado a montar um material básico, o qual distribuí a quem conhecia e necessitava, contendo minhas versões sobre o extinto e pioneiro Festival Mobral (evento este que o Brazão venceu nas três primeiras edições, de 1977 a 1979, consecutivamente). Claro que o ABC do gaúcho não podia estar de fora, já que vem cumprindo com sua função cultural de maneira primorosa. Resolvi acrescentar. O Almanaque incentivou. Mandei o material… mais adiante, mandei outro material… no terceiro, o convite! “Bei”… e agora? Mas será que consigo realmente ajudar? Será que dou conta? Falar sobre dança, de maneira espontânea, com opinião e sobre temas variados? Semanal ou quinzenal? …como já havia se questionado o Borges, na sua coluna também no ABC! …temas para uma coluna semanal não faltam, quero escrever sobre tanta coisa em relação á dança. Mas, não vamos atropelar, que a carga de “sandia” se ajeita é na estrada. Vamos quinzenalmente… e aqui estamos!

Sou sincero que não sei bem o que a estrada me apresentará nessa nova etapa. Tudo será novo. Não sei das paisagens, das pedras, do que ficará dos rastros e se alguém terá o sacrilégio de fazer fogo em cima dos meus, já apagados. Mas dizem que a estrada é realmente o que ensina. Onde quero chegar, eu sei: escreverei sobre nosso povo, sobre temas que conheço e poucos abordam, tópicos que ensinem e que possam ficar na obra de muitos que serão leitores deste. Pois, uma escola que trilhou os caminhos (próximos) de João Carlos Paixão Côrtes, admirando constantemente o folclorista sério e amigo de família, só pode passar adiante temas que interessem, não só à dança em si, mas como recuperação de elementos folclóricos que a repetição tradicionalista às vezes tende a deixar desinteressadas à grande maioria.

O lado da música me trouxe muito. Me deu amigos, me mostrou lugares, me levou às estâncias, chácaras e “pueblos”, a caminhos e picadas que a dança não teve como me proporcionar. Me apresentou pessoas simples, trabalhadores e moradores rurais, com antiguidades ainda nas falas e nos gestos. Pessoas que não se divertem mais do que simplesmente cultuam. Mas a música e a dança, o campo e as pessoas, são tudo fruto de um único ambiente e de um estereotipo humano e social ausente do resto do mundo. E essa observação nos coloca em um pedestal de preservação muito maior do que um simples divertimento ou entretenimento.

A dança, na ótica que aprendi da estrada, é um complemento da nossa terra e do nosso ambiente rural (cada vez mais absorvido pelo trigo, pelo soja e pelas cidades grandes). É um culto a um lugar que não se fez a base da alegria, mas sim de mãos calejadas e terras prometidas e não entregues a nossas colonizações. Essa gente, essas paisagens e esse culto sagrado a um lugar mais sagrado ainda é o que pretendo deixar impregnada em cada palavra aqui escrita durante as madrugadas quinzenais, para preservar no olhar dos leitores muito da nossa origem e do que se perde constantemente da nossa gente… principalmente no que demonstramos nos palcos, por aí afora.

Esse é meu fim, o meu objetivo, o lugar que sei que existe sem ao menos nunca ter estado lá… o “cemitério de elefantes” que todos lerão constantemente nessa coluna. Pois os elefantes sabem exatamente onde irão terminar, sem mesmo nunca precisar ter estado lá!

“Quem tem ganas de ir em frente “rebenta” o mundo em reponte,
Pois mesmo embretado e estanque consegue ver o horizonte!…
– Quem desconhece as fronteiras campeia sua própria glória…
…E entre os rastros e a poeira grava seu nome na história!”

Grato Tânia, espero estar à altura de tua confiança e do convite. Conte comigo… e vamos iniciar esta estrada em direção à dança do nosso povo!

*Foto: Do filme O tempo e o vento, de Jayme Monjardin

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TAGS: Dança, Diego Muller, folclore,

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