Banquinho Tipo Exportação

por Paulo de Freitas Mendonça
Banquinho tipo exportação
crédito: Divulgação

Embora este texto seja postado somente agora em 2017, o escrevo quando estou de malas prontas para mais uma turnê pelo Chile, de 10 a 20 de novembro de 2016, este glorioso ano, considerado pelos místicos como ano da sabedoria, regido pelo arcano maior do tarô, “o Eremita”, este que professa o amor à solidão, o silêncio e o isolamento na busca da autossuficiência da alma. O momento é apropriado para discorrer sobre algo que ecoa nas planícies entre as Cordilheiras dos Andes e lugares ermos no alto das montanhas.

O tema que abordo é uma das tantas facetas do canto improvisado chileno, “el banquillo” (o banquinho). Esta modalidade tem tamanha aceitação que vira produto cultural de exportação e tem sido apresentado em outros países, por pajadores locais, inclusive no Brasil. A disseminação do banquillo está relacionada à circulação de improvisadores internacionais nos encontros de Pajadores do Chile.

A modalidade é um jogo de perguntas e respostas entre os improvisadores, quando normalmente o público elege quem e sobre o que perguntar. Todos os troveiros elaboram suas perguntas em estrofes de quadras e o interrogado deve responder também em quatro versos, imediatamente. Neste embate descontraído, em que vale mais o inusitado do que a poética, mede-se a rapidez de raciocínio, a criatividade, o conhecimento e a perspicácia de respostas à altura ou superiores as perguntas. Quando o espetáculo conta com um número reduzido de pajadores há um rodízio e todos perguntam e respondem, cada um a sua vez, é claro, porém quando há bastante participantes, elege-se um e este é bombardeado por uma rodada de perguntas dos demais.

O banquillo, por ser um contraponto de perguntas e respostas, fortalece o argumento de que ao improvisador não basta apenas conhecer as técnicas de rima, métrica e poética. É necessário conhecimento das diversas culturas das nações e regiões envolvidas em cada encontro de pajadores, dos saberes ancestrais e contemporâneos, das multifaces da história, da geografia e especialmente do canto improvisado mundial. E isso não é somente para o banquillo, embora ele ressalte esta responsabilidade, é para o engrandecimento do fazer artístico do improvisador, para o deleite do público e para a sustentabilidade da cultura autóctone.

O improvisador histórico, muitas vezes considerado um eremita, é o amante do silêncio, misto de monge e de andejo, conhecedor dos caminhos, sabedor das notícias e por isso, considerado o primeiro jornalista, antes de a escrita dominar os rincões ermos. Ele é o que vive no isolamento de seus pensamentos, na construção de sua sabedoria, a renegar conceitos de falsas ideologias da pseudocultura e do ilusório externo e transitório. É um bombeador dos caminhos, que aqui no sul do continente americano, ao matear, silencia e avista lonjuras para produzir sua filosofia de vida. O pajador está legitimado no banquillo e este se legitima no canto improvisado da maioria dos países, aliás, já que divago, aproveito para professar algo que o futuro há de conferir: o banquillo há de ingressar na cultura da improvisação mundial, assim como a titulação de improvisador mais conhecida no planeta há de ser ao lado de trovador, a palavra pajador. Aqui cabe um esclarecimento: o homem de marte deve estar se perguntando o porquê de eu citar a palavra pajador ao lado de trovador.

Creio que, atualmente, o sinônimo mais popular de improvisador em qualquer nação seja trovador, em virtude do movimento poético literário chamado trovadorismo, que surge na idade média, no século XI. Contudo, no século XX, um novo movimento poético de raiz se apresenta em esfera planetária e se firma nos primeiros anos do século XXI, que é o movimento pajadoril. Por isso, não temo em afirmar que a palavra pajador possa ganhar tal importância, em virtude da quantidade de encontros de pajadores no sul do mundo, com participações de verseadores dos mais diversos países, como estes, aos quais vou, no Chile.

Por fim, neste momento em que o leitor está lendo este texto eu já me encontro de volta, depois de ter dividido palcos, mesas, brindes e experiências com meus pares de oito países e compartilhado de momentos especiais nos banquillos, nos brindes, nos pés forçados, nas redobradas e nos contrapontos de cada encontro.
-.-.-
Apresento como complemento deste texto, uma foto na qual apareço participando de um banquillo com payadoras chilenas (Miriam Arancibia, Soledad Menares, Daniela Sepúlveda e Ingrid Ortega) e um vídeo de uma mostra de banquillo em que o repentista cubano Luis Paz Esquivel “Papillo”, um dos mais importantes improvisadores da atualidade no mundo, responde a perguntas de representantes do Chile, Argentina, Brasil, Uruguai, Colômbia, México e Porto Rico.

Ressalto que o encontro mostrado no vídeo acontece no auditório do Colégio San Benito, em Santiago, capital do Chile, tendo como público os alunos, professores e colaboradores da escola, durante o turno da manhã, portanto em período de aula. E, para que tenhas noção da valorização desta arte, informo que esta escola mantém oficinas de poética e improvisação, ministradas por payadores para alunos e professores, sendo que o vice-diretor é um dos oficinandos.

Assista o vídeo

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