“Aqui… a felicidade não tem anéis nos dedos!…”

por Diego Muller
Baile antigo
crédito: Pedro Weingärtner

“Aqui…
…a felicidade não tem anéis nos dedos!…”

Machado de Assis separava nosso país em duas fatias: o Brasil real e o Brasil oficial, onde o real era o reflexo do povo… e era o povo. Ariano Suassuna, mestre em cultura popular Brasileira, defendia essa tese, batendo muito de frente com o Brasil oficial, que ele intitulava burlesco. Talvez por nosso histórico de desconfianças interpessoais, forçando-nos a burocratização, inclusive da cultura.

Bueno. Então imaginem uma cena antiga…

“…Um ranchito de madeira – pequeno, qual a esperança. Parapeitos na frente, com balizas recostadas em forquetasfalquejadas a facão. Pingos bem encilhados, atados um a um ao parapeito. Pelas frestas se enxerga um breu convidativo, que mescla aconchego e descontração, sob candeeiros exalando querosena e lamparinas pingando rastros de ceras no metal tingido a ferrugem. Cavalhada ausente, pois seus donos (que inclusive capricharam nos aperos e chapeados) estão recostados nas paredes do lado de dentro do ranchito, tenteando um trago para tirar a poeira da garganta, talvez adquirido no decorrer da estrada, de rumo à farroma. Algumas prendas, bem coloridas (de acordo com a idade) revezam seus mates, doces pelo açúcar queimado.

Outro peão, sem valor ao vício, simplesmente observa o pó que sobe da sala no arrastar de passos de marchas, bem daquele jeito antigo. Isso mesmo: passos de marcha… pois lá, num outro canto, uma gaita – talvez Honner alemã ou Todeschini serrana – floreava um contrapasso, costiada por um violão Trovador tão gasto. Os dois ladeados por um panderito chistoso, dando timbre a um cantor rijo que entoava marcas que aprendeu com o tempo dos seus avós. Aquele que observa, não baila… pois teve seu talento desenhado a base de braço, puxando queixo de potros nas primaveras da querência. Não se acha digno ao mote da dança e do ponteio de uma guitarra. A cena é quase um retrato. Gente bem “pilchada”, bombachas de dois panos. Faixas na cintura, apertando os rins, como é costume dos nossos. Guaiaca lustrada e fivela de alpaca tinindo, só perdendo espaço para o “bisna” – casca de ovo – ajoujada a ela, só com a correia aparecendo.

Botas lustradas a cebo de ovelha. Os lenços, de seda antiga, com seus nós bem firmes ao pescoço. Os chapéus escorados nas cadeiras, ou ainda presos à guaiaca. Algum mais pachola de espora riscando assoalho. E o ambiente está formado… e é aí então que se termina o tema. Cada índio, um tanto cru e de campo, e mesmo sem tantos requintes na estampa, respeitosamente devolve sua prenda ao canto onde ela estava, sem muitas falas, pois o corpo é quem fala pelo gaúcho. A cumprimenta, agradecendo… e volta ao seu convívio de conhecidos, no outro lado do rancho… bica mais um trago novamente, desta vez para a coragem… E aguarda o que a noite a mais lhe promete. Queda um silêncio. E o cantor se alça: lembra mais ainda de seus antepassados… ele se atreve e rasga o instrumento, como a procurar um tom necessário. O espaço ainda quieto, cada pessoa em suas atenções. E um tamboreio repica no tampo, rasgando o ar gravemente. Todos os olhares se voltam ao cantador, pois sabem que aí vem algo diferente, fora do esperado e de sabor primitivo, tão qual o clima do ambiente que comungam todos. A voz vem anasalada, com acentos caboclos – como nossas danças primitivas e sapateadas, que existiam no RS – entoando frases de décimas lusas, de sotaque lamentoso, citando “tirana” no conteúdo da letra que se nota atento.

A sala se alvorota elegantemente. Sabem que é um tema sapateado, onde todos podem mostrar habilidades inesgotáveis de criação, numa herança das lides de touros da Portugal antiga, ainda presente na maioria dos sobrenomes que habitam esta sala. Um torena se atreve primeiro: ele mirou a noite toda pr’uma chinita, de flor de crochê no cabelo, colar de marcassita ao pescoço, vestido floreado de chita – chita nobre – coloreando um jardim ante o breu da sala. De lenço na mão e atitude no olhar cruza a quina da sala e estende o pano a ela, numa postura grave e de falas no olhar. Ela se ergue do banco, debruçando sua mão levemente sobre o lenço. O cavalheiro – índio de campanha, filho de capataz, um posteiro novo num campo a léguas de distancia – sem charlas, pelo lenço abraça a mão da donzela, que advinha o porvir. Outros tantos peões repetem a cena, pois o ritual é este… e sempre este – maior que o tempo.

A anunciação do cantante se repete em outro verso “tirano”, convidando a todos para se distribuírem nos espaços em que a sala proporciona. Damas conduzidas no assoalho e cumprimentos elegantes de gente simples na execução. Distancias figuradas… e o mestre-sala – o mais pachola e atrevido que se disponibilizou no então – já larga: “Cumprimento”! É o anuncio para a dança mais primitiva e teatral da nossa gente: a Tirana-do-lenço. O desfecho, creio que todos sabem: Prenda se atrevendo a ser prenda, se retraindo e se insinuando com as artimanhas que nosso ser genuíno e retraído dispunha. Peões firmes ao solo, roseteando esporas em púas, firmando castanholas ao ar, como a bater palmas e reverenciando quem estava a sua frente. Mesclas de intervalos com lenços agitando sarandeios entre o “olor” das lamparinas e o perfume de romantismo que a dança pode conduzir. Tempo antigo que retorna, feito um portal nas poucas luzes do ambiente! E o ritual se completa!…”

Conseguiram visualizar?

Mas não… o texto não está falando de um baile antigo, de um rancho em campos pampeanos surrado pelo minuano, com gente de 80 anos ou quem não vive mais. O texto fala sim de um baile à moda antiga – atual – em pleno asfalto de uma cidade… esses que realizamos para resgatar – de maneira REAL – o que foi nosso um dia, levando adiante os pensamentos de que nossas danças vieram a tona para serem bailadas de maneira espontânea… da mesma maneira como nasceram… espontâneos como sempre foi nossa gente.

Uma flor de baile… flor que nasceu no asfalto, mas uma flor!

Em 2004, haviam bailes â moda antiga, vários. Porém o diferencial era “não ter bateria” basicamente. Sofríamos com eventos sem a possibilidade do uso de indumentárias nossas, afora dos CTGs. Bailes de bandinhas, bailes modernos, tches aqui, rebolados acolá, haviam muitos. Bailes sem o uso de nossas danças nos mesmo, era total então. A refundação do “baile a moda antiga” nesse formato espontâneo de nossas danças foi feito em Canoas, no CTG Brazão do Rio Grande. A ideia aqui não é fazer propaganda, mas sim reforçar o conteúdo cultural levantado lá no início dos XIII bailes anunciados. E, portanto, indago: o que se tira para nossas danças de um “baile a moda antiga”?

Já imaginaram que muitas das dúvidas que se tem em relação a nossas danças, como eram, porque das rotinas e rituais de cada uma, se existia tal coisa ou tal movimento, o “poder” ou “não poder” de algo, etc… tudo pode ser visualizado, aprendido e posto a prova em um “baile a moda antiga”? Feliz dos que sabem que sim. Diversas citações de Paixão Côrtes, por exemplo, em seus cursos (e livros) foram postas a prova e comprovadas nas observações destes bailes: o uso de rodas dentro de outras rodas maiores é uma delas. Mitos como o de que nossas danças sempre eram usadas para conquistar alguém caíram por terra visualizando esses eventos. Se matar cantando uma valsa da mão-trocada, por exemplo, para ganhar e mostrar interpretação em um evento, pode muito bem ser um ato derrubado perguntado: “se canta assim diante de uma prenda em um baile à moda antiga hoje?” Temas de como se conduzir a prenda, como convida-la, como agradece-la, como sapatear diante dela e como ela reage a tudo isso. Dançar com alguém desconhecido. Convidar alguma moça acompanhada dos pais. Dançar chote de duas-damas e porque dançar com duas mulheres – esta sobrando prenda na sala? Como formar filas, rodas na sala, danças espalhadas, pares independentes e dependentes. Tudo, absolutamente tudo, pode ser observado e comparado em analogia a como era antigamente.

Para finalizar digo: aprendam com esses eventos e tentem deixar nossa danças – realmente – mais terra e mais reais… mais perto do que era nossa gente… mais espontâneas e felizes… porque “aqui… a felicidade não tem anéis nos dedos”, como diz o poema de Eron Vaz Mattos. Aqui é o Brasil real, que tanto Machado de Assis e Suassuna desejavam… e se Paixão me permitir, é o mais perto do que ele desejava para nossas danças… e não demos cancha a seu sonho!

Um abraço, a moda antiga!
E até dia 13 de agosto, em Canoas!

(*Imagem: Pedro Weingärtner – 1892)

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