Antes e depois de Tropa de Osso…

por Luiz Carlos Borges
Grupo Horizontes
crédito:

Inverno de 1979, final de julho, por volta das 18 horas de uma fria tarde santa-mariense, chegando à antiga Biblioteca Pública e centro cultural da cidade, na praça central ou popularmente, Praça do Chafariz, encontrei-me pela segunda ou talvez terceira vez, com Humberto Gabbi Zanatta. Um rápido aperto de mãos, alguns sorrisos e ele foi tirando do bolso da jaqueta uma folha dobrada em quatro, de onde, ao desdobrá-la se podia notar que saltavam da caixa (como em corrida de cavalos), cinco estrofes de bom tamanho. Alcançou-me e disse que era um tema para darmos início a uma parceria musical.

Eu o convidei para entrar e irmos até minha sala (eu era o diretor da biblioteca nessa época), mas como ele não podia ficar, trocamos um novo aperto de mãos e eu, em passos mui lentos, me fui biblioteca adentro com folga para ler umas duas vezes a letra recebida para musicar. Confesso que nunca encontrei resposta para o que aconteceu durante aqueles três ou quatro minutos que me levaram até a sala. Cheguei e fiquei parado em frente minha mesa meio apavorado, inquieto, nervoso e muito surpreso porque estava com a letra musicada! Havia concebido uma melodia, pensado na harmonia e quase esboçado um arranjo em menos de cinco minutos. Que lugar é esse no cérebro ou que espaço misterioso é esse que, às vezes, se abre pleno de luz para algumas coisas ou se fecha para outras, na escuridão?

Sempre mantenho por perto um violão e assim dei de mão naquele velho parceiro da Giannini, modelo dominique que ali estava num armário e saí cantando, num milongueiro Mi menor, a letra do Zanatta que tinha o título de Tropa de Osso. Bueno, aí rolou aquele compasso de espera, talvez gravar, inscrever em algum festival (eram poucos ainda), mas, o fato é que quanto mais tocava a milonga e mostrava para alguns amigos e colegas, todos diziam o mesmo: Põe na Califórnia de Uruguaiana! – Certo! Já que insistem… Hehehe.

Eu era estudante universitário e o meu grupo de trabalho era ainda os Irmãos Borges, lá de São Luiz Gonzaga, indicação de que eu não tinha parceiros músicos em Santa Maria. Por sua vez o Zanatta já havia, em parceria com o Canário, o Fio Rossatto, o Larry Charão o Delcí Taborda e o Ribamar Machado, fundado o Grupo Horizonte, para defender composições deles e de outros compositores de Santa Maria, na edição Californiana de 1978.

Abertas as inscrições, da 9ª Califórnia, resolvemos enviar no pacote de canções santa-marienses que viajaram até Uruguaiana pela Planalto, a nossa milonguinha meio acanhada, porém, bem arranjada e ensaiada com os competentes músicos do Grupo Horizonte, do qual passei a fazer parte desde o primeiro ensaio, dado a buena parceria, a competência e a gana de tocar e fazer música.

Classificados na triagem, mais uns bons ensaios e logo chegou o dia da defesa. Fomos sorteados para a noite de 14 de dezembro de 1979, 8ª música daquela sexta-feira calorosa na fronteira oeste. Nervosismo, muita emoção, mas a canção se manteve firme, passando para o grupo das classificadas para a noite final, no domingo dia 16. Última apresentação do concurso, tremores, arrepios, nervos à flor da pele e nada roubava a vontade do grupo de superar o desafio e o grande desejo de levar algum prêmio para a cidade – Coração do Rio Grande – Santa Maria. Na madrugada já do dia 17 de dezembro de 1979, gloriosamente, o Grupo Horizonte encerrava sua participação levando para casa preciosos troféus de melhor arranjo, melhor vocal e com sua Tropa vencedora na Linha de Manifestação Rio-grandense. De lambuja ainda peguei o prêmio de melhor instrumentista e assistimos com muito respeito e carinho, ao nosso “Guru” Dom Telmo de Lima Freitas que levantou a Calhandra de Ouro daquela edição, com sua mazurca Esquilador.

Para encerrar, resta registrar que este gaiteiro/intérprete/compositor divide sua carreira em duas partes: ANTES E DEPOIS DE TROPA DE OSSO.

*Foto do Grupo Horizonte, é de 1 ano após a 9ª Califórnia, mais precisamente, na primeira edição da Tertúlia. Na foto aparecem da esquerda para a direita: Leandro Cachoeira, Borges, Larry Charão, Ribamar Machado, Paulo Araújo e Fio Rossatto.
Obs.: Na defesa da Tropa de Osso, o Cachoeira ainda não fazia parte do grupo oficialmente e por isso não subiu ao palco da Califórnia em 1979. No lugar dele, o cantor Gelson Manzoni fez um vocal e tocou uns ossinhos como percussão. O crédito da foto é de Rogério “Rojão” Marchi.

*Abaixo a gravação original de Topa de Osso no CD da 9ª Califórnia, em 1979. (fonte: canal Festivais Nativistas, no Youtube)

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TAGS: Borges, Califórnia da Canção, Tropa de Osso,

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