O pioneiro Festival do Mobral ou Femobral

Brazão do Rio Grande no festival do Mobral

O Encontro de Artes e Tradição (Enart), concurso estadual da arte tradicionalista, reúne milhares de pessoas anualmente em Santa Cruz do Sul. Mas é bom lembrar a origem dessa competição, que é uma das maiores da América Latina. Outro festival muito especial, deu origem ao Fegart e, depois, Enart. Quem nos traz essa história é o pesquisador e dançarino Diego Müller, do CTG Brazão do Rio Grande, de Canoas, que relembra a história do Festival Estadual de Arte Popular e Folclore – Femobral/Mobral. Confere ai!

“Na década de 70, o MOBRAL – Movimento Brasileiro de Alfabetização, empenhava-se em combater o alto nível de analfabetismo no país. No Rio Grande do Sul, além de alfabetizar, também almejava divulgar a cultura como forma de elevar a auto-estima da população e oportunizar o surgimento de novos valores artísticos.

O professor e advogado Praxedes da Silva Machado, responsável cultural pelo Mobral, buscou a parceria do IGTF – Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore – com o apoio do Movimento tradicionalista gaúcho e criaram o “Festival Estadual de Arte Popular e Folclore”, que se popularizou como “Festival Estadual do Mobral”, FEMOBRAL ou ainda, só MOBRAL. O evento foi idealizado para ser itinerante, sendo realizado cada ano em uma cidade diferente.

Antes havia outros concursos também com características estaduais, porém em outro formato e mais a níveis estudantis. O Femobral veio para revolucionar tudo, em uma época em que as invernadas artísticas estavam mudando, de um modo de dançar totalmente singelo para uma característica baseado muito nos grupos de shows e de folclore (grupos profissionais), tão presentes na mídia como na TV, tais como Os Muúripas, Conjunto Internacional os Gaúchos, Tropeiros da Tradição etc. Vários CTGs ativos na época, como Os Maragatos, Brazão do Rio Grande, Aldeia dos Anjos, falando na região metropolitana, e tantos outros pelo interior do estado, como O Bombeador, Caiboaté, Chico Borges, Saudade do pago, etc., tinham influencia dos instrutores e de integrantes que participavam em paralelo desses conjuntos folclóricos. Atividade comum à época. Outra característica que vigorava, também herança destes conjuntos de show, era as indumentárias masculinas todas iguais, assim como para as indumentárias das prendas. Foi um choque que se alastrou perante os grupos… novidade.

Infelizmente não temos vídeos destas preciosidades, do início da nossa dança e de quem construiu o que somos e temos hoje. Mas as fotografias nos ajudam a validar a história contada.

As eliminatórias se davam a nível municipal, classificando os grupos para uma regional, desencadeando no evento itinerante estadual, em si. A eliminatória municipal de Canoas de 1977, por exemplo, se realizou nas dependências da biblioteca pública, no dia 24 de setembro. O CTG Brazão concorreu sozinho na cidade, já que as outras entidades não quiserem participar. Eram um evento novo e em crescimento. Já a regional do mesmo ano realizou-se em São Leopoldo, no dia 8 de outubro de 1977, contando com 6 entidades se apresentando, campeãs de suas respectivas cidades.

A primeira edição deste festival, então, foi no ano de 1977, cuja fase final foi realizada na cidade de Bento Gonçalves/RS, no ginásio municipal. Foi uma apresentação só de concurso, no sábado, dia 15 de outubro de 1977. O CTG Brazão do Rio Grande, de Canoas, instruído por Celso Luz da Costa, consagrou-se assim no primeiro campeão do estado, em danças tradicionais. Celso Luz da Costa, policial civil aposentado hoje, de Canoas, e ex-dançarino também do Conjunto Internacional Os Gaúchos, foi, portanto, o primeiro instrutor de danças, campeão do estado, ainda na ativa hoje em dia, como jurado e parte da equipe técnica do MTG/RS 2016 nas avaliações do atual FEGADAN.

O grupo adulto do CTG Brazão do Rio Grande, de 77 a 79, era composto basicamente por dançarinos também integrantes dos grupos de shows: Celso Moacir Luz da Costa, dançarino do Conjunto internacional Os gaúchos. Roberto Müller, dançarino do Conjunto Folclórico Tropeiros da Tradição, de Paixão Côrtes, de 76 a 83. Ronaldo Schuster, dançarino do clássico Os Múuripás na década de 70. Bráz Ivalmir de Oliveira – Xarópe – dançarino do Conjunto Folclórico Tropeiros da Tradição, de Paixão Côrtes e tri-campeão de chula do estado pelo Mobral. E João Aquino – Juca – com participação curta também pelo Conjunto Folclórico Tropeiros da Tradição. Destes, em atividade atual de danças, temos Roberto Müller, Iara Müller (sua esposa) e João Aquino, participantes atuais do grupo veterano do CTG Brazão do Rio Grande: tri-campeões do estado/Mobral, tri-campeões do Rodeio internacional da Vacaria/RS, campeões do Fegadan 2016 e participantes do corpo de baile do filme O tempo e o Vento, de 2014, de Jayme Monjardin. Celso Luz da Costa também está ainda ativo, juntamente com sua esposa Sônia da Costa, porém na parte culta de avaliações, como citado acima. Roberto Müller e Iara Müller subiram ao palco do ENART 2015, em homenagem aos 30 anos do evento e em homenagem aos primeiros campeões do estado/Mobral, numa apresentação histórica, de levantar o ginásio de Santa Cruz, com uma “simples” Tirana-do-lenço.

A 2ª edição realizou-se em 1978, na capital Porto Alegre, no palco maravilhoso do clássico Araújo Viana, com os concursos individuais e acampamento abraçados pelo centro esportivo Geroge Black. A etapa regional da grande Porto Alegre realizou-se em Montenegro, com 6 grupos concorrentes. O evento, naturalmente, cresceu mais um pouco, incluindo agora inclusive 2 grupos mirins, “hors-concurs”. Novamente o CTG Brazão do Rio Grande levou o troféu maior de campeão do estado, concorrendo com outros 10 grupos dos quatro cantos do nosso estado. Um bi inesperado, porém não tão mais quanto o primeiro.

Em 1979, a 3ª realizou-se em Lajeado, após uma etapa regional metropolitana sendo abrigada pelas dependências do CTG Poncho Crioulo, da cidade de Esteio. E para a felicidade da comunidade canoense, o CTG Brazão do Rio Grande consagra-se tri-campeão do estado, levando consigo para Canoas o primeiro troféu rotativo, de todos os existentes, por ter vencido consecutivamente o concurso estadual.

Curiosidades: Em 79, para buscar um possível tri e trazer o troféu “cidade de Bento Gonçalves” em definitivo para Canoas, o Brazão montou a dança do pau-de-fitas. Era comum na época grupos de 4, 5 e/ou 6 pares no máximo. Mais que isso era muitíssimo difícil. O Brazão foi com 5 pares, mesmo no pau-de-fitas. As figuras na época eram as três básicas – trama, trança e rede. Antes da dança o grupo realizava quadros-vivos, com cenas e poses diferentes entre cada par, de acordo com o que a música ia tocando. Novidade que as experiências de shows trouxeram e oportunizaram ao grupo apresentar. A dança corria bem, no ginásio de Lajeado. Numa das passadas da trança o dançarino Xarópe realiza um erro, sem querer, onde só ele notou. Ele, muito “cancheiro” de palco, percebendo o equivoco dançou toda a ida do pau-de-fitas dobrando sua concentração, paralela com a dança e ao mesmo tempo pensando em como concertar aquele equivoco, e não jogar fora um possível título ao Brazão, já que o grupo estava preparado e bem cotado para tal evento. Na volta, portanto, ao chegar no devido par, cuidando o tempo certo de corrigir o erro, ele realiza uma manobra de dança que concerta o engano com malandragem e experiência, onde só os dançarinos do grupo e alguns mais atentos da torcida entenderam o ocorrido. Nem avaliação se apercebeu, o que na época não necessariamente tiraria uma colocação boa de um grupo de ponta. Apresentação feita, nervos acalmados, e enfim, mais um título e o troféu definitivo para Canoas, entrando para a história da dança como tri-campeão do estado e também como o único CTG tri-campeão consecutivo até hoje. O primeiro troféu rotativo ficou só por Canoas, nunca passou pelas mãos de outro CTG que não o do Brazão.)

A 4ª edição do Mobral, de 1980, assim foi abraçado por Cachoeira do Sul. O CTG Brazão do Rio Grande, atual tri-campeão da época, como convidado, não participou do evento, realizando um espetáculo de abertura, no ginásio do parque da Fenarróz.

Já a 5ª edição estadual aconteceu em 1981, na cidade de Lagoa Vermelha. Em 1982, a 6ª edição foi em Canguçu. A 7ª etapa, em 1983, foi para a cidade de Soledade . E a 8ª edição do Mobral, em 1984, foi nos pavilhões clássicos da cidade de Farroupilha. Em 1985, a 9ª edição seria em Rio Pardo. Como as autoridades do município desistiram quase nas vésperas, Farroupilha passou a sediar novamente, já que tinha infraestrutura compatível e testada no mesmo evento. Decidiu-se, então, não mais alternar o local, uma vez que Farroupilha se propunha em continuar realizando anualmente a final.

GAG Piazitos do Sul, de Canoas, se tornou bi-campeão de danças do FEMOBRAL, nos anos de 1981 e 1983.

Os eventos do Mobral eram realizados em formato de espetáculos, onde os grupos que apresentavam danças do folclóre gaúcho no formato que mais agradasse o público levava o concurso. As avaliações eram feitas em cima do impacto que os grupos causavam nos jurados, assim como no público. Não haviam sub-divisões de avaliação de correção coreográfica, interpretação, música, indumentária e outros quesitos como hoje. Basicamente eram avaliado o brilho do grupo e a criatividade das coreografias criadas em cima de cada dança selecionada. Neste período não eram tempos ainda de entradas e saídas, onde alguns grupos mais arrojados realizavam quadros-vivos e temas musicais da época para se adentarem no palco.

Uma curiosidade importante, foi que o pesquisador João Carlos Paixão Côrtes avaliou a primeira edição do concurso do Mobral, claro: dentro dos critérios estabelecidos na época, já que critérios que temos hoje de avaliação veio a surgir depois. Somente em 1983, com o seu histórico Curso de danças de Panambí (de 80 horas práticas e didáticas), organizado com o apoio do IGTF, e auxiliado por Ery Assenato e Térson Praxedes, inspirado pela falta de importância dos grupos nas descrições originais contidas no manual, e até pela dificuldade em saber da existência do próprio manual, foi que se passou a bater em cima da importância coreográfica das danças gaúchas nos concursos.

Nico Fagundes, Edson Otto, Gilberto Carvalho, Lilian Argentina, Térson Praxedes, dentre outros vultos do nosso folclore e da nossa arte, passaram a serem avaliadores de tal evento, mostrando a necessidade do mesmo de ser ramificador da cultura e da arte como um todo, e não só da didática prática das danças. No ano de 79, por exemplo, o time de avaliadores se deu por: Prof. Carmen de Mello Matos do IGTF, do conselheiro do MTG Nei Zardo, do poeta e declamador Marco Aurélio Campos, do compositor Gilberto Carvalho e do instrutor de danças Ery Assenato. A direção geral do evento se deu por Edson Otto, Praxedes da Silva Machado e pelo vice-presidente do MTG da época Carlos Campos.

A partir de 1986, o MOBRAL não consegue mais realizar o concurso estadual de danças, passando aos grupos a necessidade de se ter o mesmo anualmente, já consagrado. Assim, o Movimento Tradicionalista Gaúcho abraça a causa, em parceria com a Prefeitura Municipal de Farroupilha e o Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore – IGTF, passando a criar outro nome e uma nova concepção de evento, a ser denominado FEGART – Festival Gaúcho de Arte e Tradição. Sua realização, então, acontecia sempre no último final de semana de outubro, permanecendo em Farroupilha da 1ª à 11ª edições, portanto, ate o ano de 1996, com acampamentos no campo de Futebol, extensivo ao parque da cidade.

Tendo em vista o crescimento do festival e das necessidades estruturais e financeiras para sua realização, o restante da história todos conhecem, tendo o último FEGART a ser realizado em Santa Cruz do Sul, em 1997, na sua 12a edição, no segundo final de semana de novembro.

Somando, assim, Mobrais e Fegarts, temos 21 edições de concursos estaduais de danças.

Por questões que envolveram o nome do festival, reivindicado pela Prefeitura de Farroupilha, houve a necessidade de mudança, no ano de 1999, de nomenclatura, do evento realizado pelo MTG, exclusivamente. Passou-se a denominar-se ENART – Encontro de Artes e Tradição Gaúcha. No ano de 2015 se realizou a 30ª edição. E, neste ano de 2016, completaremos a impressionante marca histórica de 40 concursos estaduais de danças, no nosso estado: 40 campeões.

Dia 15 de outubro de 2016 vamos comemorar! …E a dança agradece!!!”

MOBRAL – FESTIVAL ESTADUAL DE ARTE POPULAR E FOLCLORE
Todos campeões

I MOBRAl – 1977 – Bento Gonçalves/RS
1º Lugar: CTG Brazão do Rio Grande – Canoas/RS
2º Lugar: CTG O bombeador – Pelotas/RS
3º Lugar: CTG Caiboaté – São Gabriel/RS

II MOBRAL – 1978 Porto Alegre/RS
1º Lugar: CTG Brazão do Rio Grande – Canoas/RS
2º Lugar: CTG Saudade dos pagos – Butiá/RS
3º Lugar: CTG CTG Aldeia dos Anjos – Gravataí/RS

III MOBRAL – 1979 – Lageado/RS
1º Lugar: CTG Brazão do Rio Grande – Canoas/RS
2º Lugar: CTG CTG Aldeia dos Anjos – Gravataí/RS
3º Lugar: CTG Coronel Chico Borges – Santo Antônio da Patrulha/RS

IV MOBRAL – 1980 – Cachoeira do Sul/RS
1º Lugar: CTG
2º Lugar: CTG Coronel Chico Borges – Santo Antônio da Patrulha/RS
3º Lugar: GAG Piazitos do Sul – Canoas/RS

V MOBRAL – 1981 – Lagoa Vermelha/RS
1º Lugar: GAG Piazitos do Sul – Canoas/RS
2º Lugar:
3º Lugar:

VI MOBRAL – 1982 – Canguçu/RS
1º Lugar:
2º Lugar:
3º Lugar:

VII MOBRAL – 1983 – Soledade/RS
1º Lugar: GAG Piazitos do Sul – Canoas/RS
2º Lugar:
3º Lugar: CTG Brazão do Rio Grande – Canoas/RS

VIII MOBRAL – 1984 – Farroupilha/RS
1º Lugar:
2º Lugar:
3º Lugar:

IX MOBRAL – 1985 – Farroupilha/RS
1º Lugar: CTG Estância da serra – Osório/RS
2º Lugar: CTG Aldeia dos Anjos – Gravataí/RS
3º Lugar:

(em breve atualizaremos a lista dos vencedores)

teste
TAGS: