A Mazurca

por Diego Muller
mazurca
crédito: Divulgação

A Mazurca (a nível mundial) é uma dança tradicional de origem polaca, na sua origem feita por pares enlaçados formando figuras e desenhos geométricos, em compasso de ¾ e tempo vivo. A mazurca é semelhante à “oberca”, que é uma variante muito rápida. Ela era um ritmo pontuado, com característica importante, de acentuação típica no 2º e 3º tempo do compasso, personalidade da dança que a seguiu em todos os lugares onde se popularizou a posterior. A mazurca era frequentemente utilizada pelos compositores da Polónia da era romântica, como “Chopin”, “Moniuszko” ou “Wieniawski”. A “Mazurka polonesa” era uma dança rápida, com aproximadamente 170 batidas por minutos, feita em pares, formando figuras e desenhos diferentes. Alguns dizem que foi inspirada na corrida da cavalaria polonesa, quando percorria pelo centro da Europa.

Na Polônia já não se dança a mazurca, apesar de ser a dança histórica nacional desse país (assim como no RS ela não tem mais vida, perdendo lugar para a sua filha “rancheira”). Em 1750 entrou na Alemanha, também extinta hoje em dia. E ganhou o mundo através da França antiga. Mas em “Cabo Verde” ainda hoje é dançada e tocada em quase todas as ilhas com incidência nas de “Santo Antão”, “São Nicolau” e “Boavista”. No “Fogo” existe o “rabolo”, que é uma variante da mazurca. Tornou-se também tradicional dançar-se mazurca no condado de “Nice” na França.

Na Argentina a Mazurca entrou em 20 de maio de 1851, através do teatro. No Uruguai foi firmada nos salões em 1854. No Brasil aproximadamente entrou também nessa época, talvez um pouco antes, entre 1837 e 1851. Era conhecida também no Rio de Janeiro como dança teatral. Chegou também ao folclore nordestino, e passou a se chamar “mazuca”, que veio do colonizador europeu e se mesclou à cultura afro, índia, ganhando uma cor especial e diferente (assim como cada mazurca em seus lugares diversos de existência no mundo: argentina, Uruguai, RS, etc). No nordeste era dançada por pessoas simples e do campo, girando em um círculo, na mesma direção, e cantando “loas” (músicas), que geralmente falam do seu cotidiano, citando rimas com resposta de todos, formando um grande coro.

Já no RS, chegou próximo à Guerra do Paraguai, entre 1864 e 1870. Chegou como dança de par enlaçado, numa geração posterior às contradanças. As primeiras danças de Mazurca que aqui se criaram eram coreografadas (não como as danças de salão e bailes que temos hoje: valsas, rancheiras, chotes, vaneiras, etc). Eram passos fundamentais com peculiaridades no seu entremeio que davam o nome característico a cada motivo coreográfico. Como: Mazurca de carreirinha, Mazurca marcada e Mazurca galopeada. Assim eram as primeiras mazurcas. Notem que no próprio nome da “marca” existe o Ritmo e a Peculiaridade juntos, nominando claramente cada motivo coreográfico. Outras tantas se perderam no meio do tempo, sumidas do resgate dos pesquisadores. A posterior sumiu a “peculiaridade”, ficando somente o “passo básico”, tornando-se simplesmente: Mazurca (dança de salão).

Lembramos todos de que estamos falando da mazurca rural, da mazurca rural rio-grandense (muitas vezes citada como “mazulca”). Não da “mazurca uruguaia” (que se “apericono”, a posterior, devido à dança nacional de lá) e recebeu influencia e imigração de outras localidades diferentes das nossas, portanto era diferente. Muito menos da “mazurca argentina”, que em “Corrientes” e “Misiones” recebeu diversas influências de imigração que não tivemos aqui, e transformou-se em rancheira, para aí sim nos doar essa peculiaridade bailarina (isso sem citar a umMazurca-russa, a Mazurca-segoviana e a Mazurca-polka). A mazurca citada aqui é nossa, e é a nossa: “mazurca rural gaúcha”. Cada localidade tem a sua, com suas peculiaridades, e pesquisa de outros países não deve ser levada em consideração como característica única de ritmo, principalmente quando falamos de uma época onde a comunicação nem se comparava com a de hoje, e as informações levavam muito tempo até serem assimiladas a localidades distintas.

É muito normal, principalmente nos dias de hoje (onde a mazurca já é um ritmo morto), confundirem-na com a Rancheira. Até por serem ritmos parecidos e por a rancheira descender da mazurca. Porém são dois ritmos totalmente distintos, e registrados como distintos: tanto em musicalidade quanto em bailado. Só o fato da Mazurca ter gerado a Rancheira já prova que são (e eram) dois ritmos distintos. E sendo distintos, há de se propagar essa informação para não falharmos com a história.

A morte da Mazurca pura (ritmo peculiar: dança e musicalidade) iniciou a partir da década de 20 no RS, quando a Casa Eléctrica começou a gravar nossos temas regionais, tornando-os populares e mais “citadinos”, digamos assim. A cor natural, rural e simples que os temas possuíam (distantes das comunicações existentes na época) foi se perdendo, ganhando conotações novas que modificariam a mazurca para sempre, até causar sua morte, numa transmutação total para rancheira, completada já na década de 50 aqui. Na década de 20 a coreografia antiga (marcação de mazurca e peculiaridades coreografadas) existia apenas em localidades afastadas dos nossos centros urbanos, em rincões afastados. O processo de morte se deu quando a musicalidade da mazurca continuou a se estender nos bailes antigos (inclusive devido a propagação das gravações citadas antes, tocadas de maneira antiga), porém dançada agora com essas conotações mais “citadinas”, cambiando os tempos fortes dançados. A coreografia do passo fundamental se modificou. Chamou-se rancheira. Logo essa peculiaridade ganhou a música, e o ritmo rancheira se disseminou. Os resquícios onde se tocavam mazurca (com o abre e fecha característico da gaita de botão) eram dançados como rancheira agora. E quando tocavam uma rancheira, também se dançava como rancheira. Obvio: a música gravada se propaga para sempre registrada, e a coreografia vista e copiada a olho morre sem resquícios. A posterior, então, nem se tocava mais mazurca, e a rancheira, mais animada e mais viríl, tomou conta dos bailes, matando sua mãe polaca de vez.

Portando, resumi-se, cronológicamente:
01-Mazurca coreografada (temas peculiares)
02-Mazuca como dança de salão
03-Música da mazurca dançada como rancheira
04-Rancheira tomando conta

Acreditamos que assim tenha sido a cronologia da morte da mazurca, de maneira natural, assimilada pelo povo e gradualmente modificada.

A mazurca primitiva gaúcha trazia ainda o resquício europeu e polaco de ter acentuação típica musical um tanto forte nos tempos 02 e 03 (diferente da rancheira, onde a acentuação sempre foi no tempo forte 01). Essa acentuação era visível na musicalidade, onde o abre e fecha da gaita de botão, aos caprichos e “socados” de fole, fortalecia os tempos 02 e 03 (diferente da rancheira). Não apresentava nunca uma instrumentação característica em notas “presas”. Essa característica básica musical também se refletia na dança e na coreografia fundamental, onde justamente os tempos 02 e 03 eram o “faz-que-vai-mas-não-vai” (maior característica do passo de mazurca), e o tempo 01 servia de apoio de planta inteira do pé no chão para esta coreografia. A influência musical no passo era clara, portanto, captando a técnica do acordeonista, com uma escassa correspondência versificada. Sua marcação era aos “picadinhos”, em passos curtos à frente, meio aos “zig-zags”, com poucos giros quando necessários, porém com curvas. Sua marcação era bem peculiar, viva e bonita, um tanto agauchada, onde o dançarino se elevava harmonicamente do solo, na ascendência do seu tronco e do seu corpo… novamente: diferente da rancheira.

Gilberto Monteiro, acordeonista, é peritos em temas antigos já mortos em nossa sociedade gaúcha… este citado, inclusive, possuindo um vídeo de uma palestra-musical sua no nordeste, falando da Mazurca (“Mazurca da Dona Bela”) e de outros ritmos nossos, tocado como antigamente.

A rancheira (a filha da mazurca) nunca foi dança com coreografia (lembrando que a Rancheira de carreirinha é criação de Barbosa Lessa, de 1950). A rancheira já entrou em nossa cultura na época das danças de salão, época em que as danças enlaçadas não possuíam mais coreografias com peculiaridades diferenciadas. E também entrou posterior às gravações da Casa Eléctrica, em 1920. A rancheira já ganhou tempo forte no passo 01 de seu fundamental, sua marcação possuía giro, passos lateralizados, no padrão de fronteira… e até teve uma versão puladinha, intitulada “rancheira serrana”.

São caminhos diferentes.

A confusão é natural. Até mesmo por hoje não termos vivos informantes e filhos de informantes da época de 1864. Todos são posteriores a 1930, que viram a mazurca nos bailes (e viram ela sendo tocada, porém já dançada como rancheira). Os informantes de Paixão Côrtes (único pesquisador que encontrou e digitalizou o formato de mazurca, como diferente da rancheira, de maneira própria, madura e responsável) eram filhos de dançarinos da mesma, que devem ter dançado-a em sua juventude, nos bailes rurais, dos rincões afastados dos nossos centros citadinos rio-grandenses.

Mas, mesmo com sua morte, e com a falta de objetividade de hoje na prática verdadeira da mazurca antiga, tão nossa e tão peculiar, o importante é que ela era bailada sim em nosso sul, diferente de sua filha rancheira, e possuía uma conotação tão peculiar, tão rural e tão sulina, que é mesmo uma pena que tenha morrido e se perdido na poeira dos tempos. Suas particularidades de abre-e-fecha de gaita, de faz-que-vai-mas-não-vai de passos, não se encontra em nenhum ritmo mais de nosso repertório atual e antigo: característica pura e de personalidade coreográfica. Mas é nossa! Pena que morreu… Sorte que registraram!

Obs.: Esse passo de Mazurca (ou Mazulca) , dançada em faz-que-vai-mas-não-vai, característica específica, única e folclórica do nosso homem do RS, antes da rancheira existir, (e que devemos valorizar), está retratada e foi registrada há 14 anos atrás (quase uma década e meia) no livro FESTOS RURAIS. E também identifica-se nas danças da MAZURCA MARCADA/2002, MAZURCA GALOPEADA/2002 e MAZURCA DE CARREIRINHA/2002, com pesquisas de João Carlos PAIXÃO CÔRTES, descritas em livros/livretos (para quem quiser aprender e entender) e já transmitida por ele em seus cursos passados. O restante é figura confusa, gerada a partir da forte divulgação da rancheira moderna!!!

É folclore puro isso!

Vale a pena aprender e divulgar, sem modismos e perda de características!!!

“Adeus, morena, que eu vou-me embora…
– Não sou daqui: eu sou lá de fora!
Adeus, morena, que eu vou-me embora…
– Não sou daqui: eu sou lá de fora!”
(Tema recolhido e adaptado do folclore)

(*Foto: II Fegadan – Caxias do Sul/RS – outubro de 2015)

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