A Improvisação no Período Farroupilha

por Paulo de Freitas Mendonça
Versos de improviso no período farroupilha
crédito: Reprodução

O gaúcho, desde sempre, possui uma tendência à poesia oral improvisada por vários motivos. Os campos largos, a natureza exuberante, a solidão dos caminhos, o anseio de liberdade, a disputa de território, as guerras de fronteira são alguns dos fatos que levam o homem da pampa a ter uma forma de expressar seu sentimento. Além do mais, o ser analfabeto não lhe permite registrar seus versos no papel. Por isso, são soltos ao vento e recriados ao calor do momento através da improvisação.

No Período Farroupilha (1835-1845), juntamente com outros registros históricos, surgem anotações esparsas sobre o lirismo que permeia as batalhas entre farroupilhas e caramurus. Estes apontamentos deixam claros a existência da improvisação e o apego ao verso. Alguns autores, hoje respeitados, mencionam e apontam versos recolhidos com este sabor da época.

Apolinário Porto Alegre, em seu livro Cancioneiro da Revolução de 1835, apresenta farto material recolhido do período, em estrofes de quadra, mote glosado, dístico, décima, copla real, soneto, entre outros estilos. Fala em rudes bardos em torno dos fogões de acampamentos que ao som das violas dedilhadas vigorosamente soltam versos que lhes vem à alma. E, ressalta que estes versos são quase sempre frutos da improvisação e de um repentismo eloquente. Cezimbra Jacques, em Assuntos do Rio Grande do Sul, diz que os bardos rústicos manifestam pensamentos elevados e ideias sublimes em suas poesias toscas. Já Fernando Osório em A Graça e o Lirísmo-Heróico dos Farrapos, escrito no centenário da Revolução Farroupilha, recolhe, especialmente as décimas, que hoje classificamos como no estilo Espinela, as quadras e os sonetos. Afirma que o general Bento Gonçalves é adepto à poesia, como a maioria dos homens de seu tempo.

Entre tantos ricos detalhes, Fernando Osório cita a improvisação do tenente Osório com o comandante das armas, Sebastião Barreto. O citado tenente Osório é Manuel Luiz Osório, que luta inicialmente nas tropas farroupilhas e pós-proclamação da República Rio-grandense retorna as tropas imperiais.
J.B. Magalhães, em seu livro Osório – síntese de Seu Perfil Histórico, relata que numa oportunidade em que Osório viaja com dois companheiros de juventude, ouve a queixa de um deles por um amor não correspondido e acontece o seguinte diálogo:

– É assunto para um mote! Exclama Osório.
– Pois faça, diz-lhe um.
– Glose, acrescenta o outro.
– La vai, diz Osório depois de uma breve pausa.
Mote:
– se mais agradar desejo
– mais me foge o bem querido.
Glosa:
Que sou infeliz, bem vejo.
Vejo que sou desgraçado
e menos afortunado
se mais agradar desejo.
Contra o fato então forcejo,
em vão contra o fato lido,
sou sempre mal sucedido
nas duras lutas do amor,
se peço à Márcia um favor
mais me foge o bem querido.

Diversos autores, a exemplo de Cezimbra Jacques, Moisés Silveira de Menezes, Guilherme Schutz Filho, Simões Lopes Neto, Guilhermino César e outros, ressaltam os dons de improvisador de Pedro Canga (Pedro Muniz Fagundes), soldado das tropas de Silva Tavares. Embora seja citado por alguns como iletrado, me permito a discordar porque os versos recolhidos e associados a sua autoria são de um lirismo que dificilmente seriam produzidos por um analfabeto.

Considero que Pedro Canga seja o mais reconhecido dos improvisadores do Período Farroupilha, mas há outros, como Francisco Xavier Ferreira que morre no cárcere, Francisco Pinto da Fontoura, o autor do Hino Rio-grandense, entre outros que soltaram versos de improviso e nada se registra.

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