89 anos de um folclore sério…

por Diego Muller
Paixão Cortes
crédito: Divulgação

Hoje inicio oficialmente minha primeira coluna quinzenal no ABC do gaúcho, já que na minha estreia utilizei o espaço mais para uma apresentação, de maneira geral. E nesses 15 dias recebi (e pedi) dicas de temas que o pessoal gostaria de ler e ter uma opinião mais fundamentada, já eu é a isso que me proponho, sobre nossos ambientes de danças gaúchas. Muitas foram as sugestões, praticamente todas aproveitáveis: origem das danças, origem dos concursos, gerações e ciclos coreográficos, musicalidade das danças, letras de danças, avaliação dos concursos, causos curiosos, pessoas importantes das nossas danças, etc e etc. Temas há… muitos pipocam momentaneamente, outros deixaremos a posterior…. mas como disse Noel Guarany em certo show: “Tudo vai sair!” …E nada mais justo que iniciar um espaço falando do que nos iniciou!

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Essa semana, dia 12 de julho, foi uma data comemorativa importante para todos que lidam ou lidaram com danças gaúchas, como visto via redes sociais e na TV… quase uma data de louvor: o aniversário de João Carlos Paixão Côrtes, em seus 89 anos de vida! Não tenho a pretensão de contar aqui a história, tantas vezes repetida, de um vulto tão importante como ele é. Ou ainda de louvar de maneira tradicionalista seus feitos e suas criações. Muito menos falar de maneira jornalística sobre essa data importante. Meu objetivo é tentar despejar aqui todo sentimento acumulado, que essa pessoa influenciou e influencia, a se somar a minha e a nossa estrada cultural.

Não sei mesmo em qual data e momento conheci o Paixão, ou ele me conheceu. Meus pais dançavam no seu grupo profissional quando nasci, em 1980. Tenho pequenos “flashs” dessa época, de criança nova, nos ensaios inclusive do grupo. Mas foi por aí! Já quando dançarino, ainda criança, no inicio da década de 90, convivi com ele nas dependências do CTG em que me criei, inclusive nas comemorações de aniversário dentro da entidade. Isso em épocas de formação cultural e intelectual de uma criança. Me recordo que brincava com seus discos e livros constantemente em casa, sem nem saber da importância de sua literatura, já que tudo era muito presente no meu cotidiano. Quando dançarino adolescente, que a proximidade era mais constante pelos cursos e concursos, aí eu já era admirador e leitor assíduo de suas obras. Curioso, participativo, fã e entendedor já das coisas. Um amigo da família, que ganhei de herança.

A obra de Paixão Côrtes é ampla, complexa e completa, sendo talvez a maior do Brasil e da América latina em termos de cultura de um povo. Talvez possa perder somente para o uruguaio Fernando Assunção, pela amplitude. Mas isso, talvez. Paixão Côrtes tem função científica para com nosso povo. Não é interessado por danças, como nosso mundo erroneamente o vê. É um interessado na nossa cultura: no Gaúcho. A dança é somente um item. Paixão Côrtes foi curioso, e motivado. Depois procurou, e achou. Recolheu, gravou. Arquivou, catalogou. Depois leu, e analisou. Escreveu, concluiu. Aí então divulgou… ou não. Nisso tudo utilizando metodologias científicas, para uma conclusão verídica e coesa da cultura: o que divulgou é porque teve conclusão positiva. O que não editou foi porque não foi conclusivo, ou ainda não estava bem provado em suas análises.

A dança da “Roseira” é um desses exemplos, assim como de tantas outras. Entendo o fato de alguns tradicionalistas quererem dele mais material, do tanto que possui guardado ainda em sua casa: a grande maioria vem de um signo de concurso e de uma veia bailarina, apenas. Não possui visão fundamentada em estudos e ciência folclórica, como ele. Isso explica, inclusive, o fato de elementos e danças sem expressão popular terem sido deixadas de lado por ele (um cientista da nossa cultura) enquanto abraçado por outros (dançarinos e leitores, simplesmente). A distância é drástica. A conclusão que chego é: Paixão Côrtes é um folclorista sério. Chego não, pois já sabia… reafirmo. Não sei se alguém, um dia, chegou a cometer o sacrilégio de dizer ou de pensar o contrário. Duvido muito desse desrespeito. Ainda mais com tantas horas de estudo no lombo e de obras editadas. Sem contar sua vivencia e seu trabalho rural.

Paixão Côrtes não escreveu só sobre danças: escreveu sobre a Sociedade gaúcha (no livro mais importante que se deve ler antes de todos os outros); sobre a Religiosidade gaúcha (num livro abandonado pela comunidade católica inclusive); escreveu sobre nossas Pilchas e nosso artesanato; escreveu sobre a história do Tradicionalismo; sobre a origem das Danças gaúchas; sobre a Musicalidade das nossas danças (num livro ainda a se descobrir, infelizmente); sobre nossas Festas campeiras; sobre nossos Instrumentos; etc… aí sim, escreveu sobre Coreografias e os elementos das danças. Ele resgatou todo um ambiente, definiu a sociedade desse lugar, o que essas pessoas vestiam, os cultos e que eles pregavam, os cantos dessa gente, seus artesanatos, suas festas… e por fim, depois de tudo isso, sua dança. É um “pecado”, depois de uma análise tão grande e conclusiva (de maneira científica) dessas, se utilizarem somente de um livro e de uma ponta de iceberg.

Tudo está interligado. Tudo é uma obra só, dividida em tantos e tantos livros a se absorver. Ler um sem levar outros em consideração é como um quebra-cabeças faltando peças. Por isso da proliferação de tantos elementos caricatos em nosso meio representativo de hoje. Sua obra é um efeito cadeia. Outros pesquisadores fizeram isso: se prenderam somente a um item, deixando outros tantos de lado, ou nem indo atrás. Uns em danças, outros em musica, outros em pilchas, e assim por diante. E a maioria somente sob a ótica da observação – sem conclusão. Paixão Côrtes não. Conheceu, concluiu e falou sobre tudo… entendendo que os elementos são tentos importantes de um mesmo laço forte, bem apresilhado na cincha de uma história “a ser cantadas com liras de bronze e ferro”: a história de um povo.

Sem contar sua coragem, de dizer o que deve de ser dito, mesmo que contra os ventos momentâneos da moda dos concursos: como sua grita no “Curso de 83 de Panambí” (quando os grupos de shows se proliferavam)… com as críticas ao Fegart de 89 e 90 (quando as coreografias engessaram a forma de dançar)… ou com a assinatura da “Carta de Vacaria” em 91 (quando passaram a usar roupas diferentes, mesmo muitos dançando ainda engessados)… mais adiante com as revolucionárias “Danças birivas” de Antônio Prado 98… ou com as “Gerações coreográficas” dos Praianos de 2001… e com “A moda” e o “Ponto e pesponto”… depois com suas “Novas antigas danças” de 2002 em diante… e assim por diante… graças a Deus.

Paixão Côrtes é um folclorista sério!

Não é cria da dança e nem de shows. Veio do povo e devolveu para o povo o que era dele por direito, com a humildade e a sabedoria de saber, de entender e explicar (mesmo a tantos que isso pouco entendem) o quando sua obra ainda esta em construção, amadurecimento e longe da conclusão. Não é estanque, e nem deve ser. Matura a cada dia, longe das utópicas opiniões (balizadas em concursos e suas crias) de que ela deva ser formatada oficialmente e nunca mais analisada ou mexida a posterior. Isto é uma herança pra tantos que virão nas gerações futuras, que não devem se influenciar por uma moda atual de aplausos, que ele tem como motivo prejudicial ao nosso folclore e sua projeção. Pra ficar de herança, deve então ser bem analisada. Para isso, ele está com o livro da sua vida, como ele cita, de 900 páginas, pronto para ser lançado a qualquer momento, somente a procura de patrocínio e edição. São todas as danças inseridas. Um livro que amadureceu tudo o que já foi editado nos livros anteriores, a ponto de corrigir “problemas” causados por nós, tradicionalistas. Um livro que reescreve a história das nossas danças, de maneira séria e culta, a ponto de destruir mitos criados pelos concursos… e de levantar “lebres” pouco interessantes hoje a quem dança nossos bailes rurais. A obra que eu espero! Basicamente: é o maior livro da América latina, falando sobre as danças de um povo, maior que os de Assunção, Vega ou Berutti, inclusive. Há de se respeitar!

Paixão Côrtes é um folclorista sério!

Parabéns Paixão… pelo aniversário? Não!
Desses você ainda terá tantos pela frente, se Deus quiser…
…mas por tudo que, de maneira séria, representa a nosso povo e nossa cultura, também séria! Nós te saudamos!

Abraços fraternos, de quem te admira!

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